O manejo adequado de plantas daninhas é essencial para criar um ambiente propício ao crescimento e desenvolvimento das culturas, eliminando a competição por recursos essenciais causado pela presença de plantas daninhas. Uma espécie que tem gerado preocupações em lavouras de soja é a Euphorbia heterophylla. A Euphorbia heterophylla L. é popularmente conhecida no Brasil por diversos termos populares, tais como leiteiro, amendoim-bravo, leiteira, café-do-diabo, diabo do leiteiro, entre outros. Sua reprodução ocorre por meio de sementes, e a sua presença é amplamente difundida nas principais regiões agrícolas do país, sobretudo nos sistemas de produção de grãos, incluindo na cultura da soja (Adegas et al., 2020).

É uma espécie originária das regiões tropicais e subtropicais do Continente Americano, sua presença é notável ao norte e ao sul da linha do equador, destacando-se como planta daninha em mais de 40 países. Trata-se de uma planta anual, herbácea e ereta, podendo atingir alturas entre 20 cm e 2 m, dependendo das condições de desenvolvimento. Caracteriza-se pela produção abundante de látex branco, presente tanto nas partes vegetativas quanto reprodutivas da planta (Rizzardi).

Figura 1. Leiteiro (Euphorbia heterophylla).

Foto: Fernando Storniolo Adegas (2023).

Essa espécie é capaz de passar por várias gerações em um único ano, por apresentar um ciclo relativamente curto, que vai desde a emergência até a frutificação. Apresenta um bom desenvolvimento em solos férteis e úmidos, além de possuir alta capacidade de rebrotar quando exposto a herbicidas de contato. Devido à sua rápida reprodução e crescimento, essa planta daninha apresenta um elevado grau de competitividade em relação às culturas anuais, competindo por água e nutrientes (Embrapa). Conforme destacam Trezzi et al. (2014), o leiteiro tem potencial de causar prejuízos significativos na cultura da soja, com perdas diárias de grãos podendo atingir de 5,2 Kg ha-1 a 6,5 Kg ha-1.

Dentre as características biológicas que dificultam o controle do leiteiro, destacam-se o rápido crescimento inicial, a emergência em fluxos, a grande produção de sementes e a capacidade de rebrota. Os fluxos de emergência, estão relacionados com condições de temperatura do solo e radiação solar, sendo que temperaturas entre 25° e 30° C estimulam a germinação dessa espécie (Trezzi et al., 2014).

De acordo com Adegas et al. (2020), antes da introdução da soja geneticamente modificada para resistência ao herbicida glifosato, a soja RR, a E. heterophylla era considerada uma das principais, se não a principal, planta infestante da cultura, devido às características específicas da espécie, como o longo prazo das sementes, o alto potencial de germinação em maiores profundidades de solo e o rápido crescimento vegetativo.

O autores destacam que a partir da safra 2005/2006, com a introdução da soja transgênica, o manejo de populações de E. heterophylla foi significativamente facilitado. O controle dessa espécie passou a ser realizado, quase que exclusivamente com duas a três aplicações de glifosato em pós emergência, contudo, esse sistema de manejo, com a utilização repetida de um mesmo mecanismo de ação e ingrediente ativo, gerou uma pressão de seleção de espécies resistentes ao herbicida.

O primeiro registro de resistência do leiteiro no Brasil ocorreu em 1993, aos inibidores da Acetolactato Sintase (ALS), especificamente aos ingredientes ativos clorimuron-etil, cloransulam-metil, imazamox, imazaquin e imazethapir, na cultura da soja. Posteriormente em 2004, surgiu o caso de resistência múltipla a dois mecanismos de ação, aos inibidores da Acetolactato Sintase (ALS) e aos inibidores da Protoporfirinogênese Oxidase (PROTOX). Essa resistência abrange diversos ingredientes ativos, incluindo acifluorfeno, cloransulam-metil, diclosulam, flumetsulam, flumiclorac-pentil, fomesafen, imazethapir, lactofen, metsulfuron-metil, nicosulfuron e saflufenacil, na cultura da soja e milho.

Em 2019, foi registrado o caso de resistência de E. heterophylla ao glifosato, inibidores da Enolpiruvil Shiquimato Sintase (EPSP’s) (Heap, 2023). A ocorrência desses casos de resistência, principalmente após o caso de resistência ao glifosato, tem representado um desafio em relação ao manejo dessa planta daninha, uma vez que restringe o emprego de herbicidas, exigindo abordagens mais cuidadosas e específicas para o controle eficiente do leiteiro.



Dada a complexidade e os impactos que a Euphorbia heterophylla pode ocasionar, o manejo deve preconizar pela integração de diferentes métodos com o objetivo de reduzir as populações em áreas de cultivo. No que diz respeito ao controle químico, é fundamental realizar uma intervenção no momento adequado. O pesquisador  Rizzardi (2023), destaca que o controle deve ser realizado em estádios iniciais da planta, preferencialmente até 4 folhas, para que o controle seja eficiente e minimize os potenciais danos ocasionados pelo leiteiro nas lavouras.

O Comitê de Ação a Resistência aos Herbicidas (HRAC-BR, 2021), destaca a importância da necessidade de adoção das boas práticas agrícolas recomendadas. Tais práticas são fundamentais para preservar, de maneira eficiente, as diferentes ferramentas disponíveis para o manejo de plantas daninhas, a fim de prevenir novos casos de resistência aos herbicidas e promover uma agricultura mais sustentável. Dentre as medidas, destacam-se:

  • Uso correto do sistema integrado de manejo de controle de plantas daninhas;
  • Adoção de sementes certificadas e nacionais, não somente de culturas como milho e soja, mas também de forrageiras de inverno, de forma a evitar o ingresso de plantas daninhas nas áreas agrícolas;
  • Limpeza dos maquinários, utilizados na semeadura e colheita das áreas com suspeita, que transitam para outras áreas e, ou outros estados;
  • Redobrar atenção para áreas com falha de controle, priorizando a eliminação das plantas daninhas sobreviventes, seja manual ou através do uso de herbicidas de mecanismo de ação alternativos, fazendo-se da adoção da rotação dos diferentes mecanismos de ação;
  • Uso correto de tecnologias de aplicação, bem como o uso dos diversos mecanismos de ação para os herbicidas, em pré e pós emergência, nos corretos momentos e de acordo com sua recomendação;
  • Manejar as plantas daninhas antecipadamente e antes do plantio, evitando o pousio sem cultura e, ou sem formação de cobertura de solo (HRAC – BR, 2021).

No vídeo a seguir, o pesquisador Mauro Rizzardi fala sobre essa problemática planta daninha e aborda estratégias para o seu controle e manejo na cultura da soja.


Ainda não conhece  Up Herb – Academia das Plantas Daninhas? Clique aqui  e confira todos os conteúdos de altíssima qualidade disponíveis.

Referências:

ADEGAS, F. S. Euphorbia heterophylla: UM NOVO CASO DE RESISTÊNCIA AO GLIFOSATO NO BRASIL. Embrapa, comunicado técnico, 98. Londrina – PR, 2020. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1121045/1/ComTec98.pdf >, acesso em: 21/11/2023.

EMBRAPA. LEITEIRA, AMENDOIM-BRAVO (Euphorbia heterophylla L.). Embrapa Milho e Sorgo, Panorama Fitossanitário, Cultura do Milho. Disponível em: < http://panorama.cnpms.embrapa.br/plantas-daninhas/identificacao/folhas-largas/leiteira-amendoim-bravo-euphorbia-heterophylla-l >, acesso em: 21/11/2023.

HEAP, I. BANCO DE DADOS INTERNACIONAL DE ERVAS DANINHAS RESISTENTES A HERBICIDAS. On-line, 2023. Disponível em: < https://www.weedscience.org/Pages/Species.aspx >, acesso em: 21/11/2023.

HRAC – BR. COMUNICADO DE RESISTÊNCIA: REFERENTE AO RELATO DE RESISTÊNCIA DE Euphorbia heterophylla A HERBICIDA DO GRUPO DOS INIBIDORES DA EPSPS (GRUPO G). Comitê de Ação a Resistência aos Herbicidas, 2021. Disponível em: < https://www.hrac-br.org/_files/ugd/48f515_7aad8246908f471487523e1a4429f4be.pdf >, acesso em: 21/11/2023.

RIZZARDI, M. A. PLANTAS DANINHAS: LEITEIRA. UpHerb, Academia das Plantas Daninhas. Disponível em: < https://upherb.com.br/int/leiteira >, acesso em: 21/11/2023.

TREZZI, M. M. et al. IMPACTO ELEVADO: PREJUÍZOS CAUSADOS PELO LEITEIRO NA SOJA. Revista Cultivar, ed. 183, ano XV, 2014. Disponível em: < https://revistacultivar.com.br/revistas/grandes-culturas/183 >, acesso em: 21/11/2023.

Acompanhe nosso site, siga nossas mídias sociais (Site, Facebook, Instagram, Linkedin, Canal no YouTube)

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.