A ferrugem-asiática é uma doença que traz grandes preocupações aos produtores de soja, podendo alcançar perdas totais na ausência de controle. Ela é causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, surgiu na Ásia e espalhou-se, chegando ao Brasil na safra 2001/2002, no Paraná. Nesse mesmo ano também foi encontrada em lavouras do Paraguai, marcando a primeira aparição na América do Sul. Atualmente, ela ocorre em praticamente todas as regiões produtoras de soja do nosso país.

Os sintomas da ferrugem-asiática (Figura 1) são observados inicialmente no terço inferior da planta, surgindo pequenas pontuações com até 1 mm de diâmetro, mais escuras que o tecido sadio da folha e com coloração esverdeada a cinza-esverdeada (Godoy et al., 2017).

Figura 1: Sintoma de ferrugem-asiática, pontos escuros na folha e formação de estruturas reprodutivas no verso da folha. Foto: Alex Maquiel Klein/PET Agronomia UFSM.

A face inferior da folha apresenta pequenas saliências na lesão, parecidas com feridas ou bolhas, chamadas urédias, que são as estruturas de reprodução do fungo. Uma lupa de 20 a 30 aumentos ou microscópio facilita a observação (Figura 2).

Figura 2: Urédias do fungo (estruturas reprodutivas) causador da ferrugem-asiática observadas com lupa de 30 aumentos. Foto: José Tadashi Yorinori.

Com o avanço da doença (figura 3), as folhas tornam-se amarelas, secam e ocorre a desfolha precoce (principal dano), impedindo a formação completa dos grãos e reduzindo drasticamente a produtividade (Godoy et al., 2017).

Figura 3: Desfolha provocada pelo fungo causador da ferrugem-asiática da soja. Foto: Rafael Moreira Soares e Maurício Conrado Meyer/Embrapa.

A maior incidência dos sintomas é verificada após o fechamento do dossel da lavoura, pois o microclima formado beneficia a infecção. Isso acontece porque há maior umidade e sombreamento, que protegem os esporos da radiação UV e radiação solar direta que poderiam dificultar a sobrevivência do fungo (Isard et al., 2006).

Para a doença se estabelecer é necessária a interação de três fatores: hospedeiro, patógeno e ambiente, conhecidos como “triângulo da doença”. Dentre os hospedeiros, foram identificadas mais de 150 espécies pertencentes à família Fabaceae (Ono et al., 1992; Slaminko et al., 2008), sendo a soja (Glicyne max), soja perene (G. sojae), kudzu (Pueraria lobata) e feijão-caupi (Vigna unguiculata) os principais.

O fungo Phakopsora pachyrhizi é biotrófico, ou seja, se reproduz apenas em soja verde ou outra hospedeira viva, dependendo nutricionalmente de tecidos vivos. A infecção depende da disponibilidade de água livre sobre a folha, necessitando de pelo menos seis horas de molhamento foliar com temperaturas ótimas entre 15 °C e 25 °C ou mais de oito horas quando sob temperaturas extremas, como 10 °C ou 27 °C (Melching et al., 1989). Entre o início da infecção e a esporulação o tempo é de seis dias sob temperatura de 26 °C. Afastando-se dessa temperatura ótima (acima ou abaixo) o período aumenta, chegando a 12 ou 16 dias sob 15°C (Alves et al., 2006).

Para o manejo da ferrugem-asiática é preciso integrar medidas culturais, de resistência genética e uso de fungicidas quando ela incide (Godoy et al., 2020). No mundo, os locais onde a doença ocorre são diferenciados em áreas que o fungo sobrevive o ano todo (se houver hospedeiro adequado) e áreas onde as epidemias sazonais dependem da chegada do inóculo através de dispersão de longa distância. Em grande parte do Brasil, do Paraguai e da Bolívia, as condições ambientais são favoráveis para a sobrevivência do patógeno durante todo o ano. Já as epidemias na Argentina e no cinturão de soja dos Estados Unidos provêm da dispersão de esporos de áreas distantes, podendo ser de centenas de quilômetros.

Esse contexto levou o Brasil a implementar medidas no intuito de limitar o cultivo de soja na entressafra, pois áreas semeadas no inverno (grande parte irrigada) principalmente na região Centro-Oeste serviam de ponte verde para o fungo, tornando comum a incidência precoce da doença ainda na fase vegetativa, em lavouras semeadas próximas das áreas semeadas na entressafra.

Alguns estados que tinham essa condição de semeadura no inverno instituíram o vazio sanitário, um período mínimo de 60 dias sem presença de soja no campo na entressafra, baseado na sobrevivência de esporos por 55 dias em folhas de soja infectadas e armazenadas à sombra. O objetivo é reduzir o inóculo do fungo, eliminando-se o principal hospedeiro. Ainda assim, o período de semeadura de soja no Brasil é extenso e conforme a região (clima e irrigação) há possibilidade de semear desde o início de setembro até o final de fevereiro, possibilitando cultivo de soja sobre soja na mesma área, ou soja em janeiro ou fevereiro após outra cultura (“semeadura de segunda época” ou “safrinha”). Porém, as semeaduras tardias recebem inóculo das semeaduras iniciais de abertura de safra, favorecendo a incidência precoce da ferrugem e aumentando o número de ciclos do fungo na safra, exigindo mais aplicações de fungicidas (Godoy et al., 2020).

Com a perda de eficiência de fungicidas, alguns estados estabeleceram limite de semeadura até dezembro (Figura 4), buscando reduzir o número de aplicações e a pressão de seleção para resistência aos fungicidas. Maiores informações sobre as legislações vigentes em cada estado devem ser solicitadas às Secretarias de Agricultura ou aos órgãos oficiais de defesa fitossanitária.

Figura 4: Períodos de semeadura de soja estabelecidos por normativas em seis estados brasileiros e data limite de colheita nos estados que incluíram essa restrição. Fonte: Godoy et al., 2020.

Outra estratégia é a de escape ou evasão, que visa prevenir a doença fugindo-se do patógeno e/ou das condições ambientais mais favoráveis ao seu desenvolvimento. Na soja, é realizada semeando cultivares de ciclo precoce no início da época recomendada. A tendência é que as primeiras semeaduras após o vazio sanitário apresentem sintomas da doença somente na fase de enchimento de grãos (quando apresentam). Nas semeaduras subsequentes, aumenta a disseminação dos esporos do fungo das primeiras áreas para as tardias, antecipando a ocorrência da ferrugem na planta, demandando maior uso de fungicidas.

Quanto à estratégia de resistência genética, as cultivares com gene(s) de resistência à ferrugem-asiática são menos suscetíveis a perdas de produtividade e auxiliam na redução da pressão de seleção para resistência do fungo aos fungicidas. Cultivares suscetíveis apresentam lesões TAN, termo inglês que significa marrom-claro e produz uredosporos em grande quantidade, aumentando rapidamente o número de lesões nas folhas, provocando amarelecimento e desfolha prematura. Já as cultivares resistentes (Figura 5) apresentam lesões RB (Reddish brown), de coloração marrom-avermelhada e maiores que as lesões TAN, produzindo pouco ou nenhum uredosporos conforme gene e, pelo desenvolvimento limitado, não ocasiona amarelecimento e queda de folhas de modo tão intenso como as lesões TAN (Godoy et al., 2020).

Figura 5: Lesão RB (marrom-avermelhado) característica em cultivar de soja com gene(s) de resistência à ferrugem-asiática. Foto: Rafael Morais Soares.

No entanto, o uso de cultivares resistentes não dispensa outras práticas de manejo, inclusive fungicidas, pois elas não são imunes e o fungo consegue provocar lesões. Se forem usadas como única estratégia, aumenta-se o risco de seleção para populações capazes de “quebrar” a resistência dessas cultivares pela variabilidade do fungo.

O controle químico é uma estratégia importante, nela as aplicações de fungicidas são recomendadas preventivamente ou no início do aparecimento dos sintomas. Quando for preventivo, deve-se considerar os fatores essenciais para surgimento da ferrugem-asiática, como presença do fungo na região, idade da planta e condições climáticas favoráveis, bem como tamanho da propriedade, equipamentos disponíveis, custos do controle e existência de outras doenças.

Os fungicidas sítio-específicos atuam contra um único ponto da via metabólica de um patógeno ou contra uma única enzima ou proteína. Podem ser absorvidos pela planta com tendência a serem sistêmicos (McGrath, 2004). Inibidores da desmetilação (IDM, “triazóis”), inibidores de quinona externa (IQe, “estrobilurinas”) e inibidores da enzima succinato desidrogenase (ISDH, “carboxamidas”) destacam-se entre os principais sítio-específicos usados no controle da ferrugem-asiática (Godoy et al., 2020). Já os fungicidas multissítios agem em diferentes pontos metabólicos do fungo, têm baixo risco de resistência e formam uma camada que protege a superfície da folha. Entretanto, eles não são absorvidos e podem ser lavados com maior facilidade pelas chuvas. Informações sobre fungicidas registrados para controle podem ser obtidas no Agrofit – Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários.

Em relação à eficiência dos fungicidas, há informações disponíveis no site do Consórcio Antiferrugem, que são obtidas por uma rede de ensaios cooperativos que avaliam individualmente os fungicidas com o objetivo de determinar a eficiência de controle. A recomendação é utilizar essas informações na construção dos programas de controle, adequando conforme material genético, época de semeadura, condições climáticas e doenças predominantes na região. Também está disponível gratuitamente o aplicativo do Consórcio Antiferrugem nas versões para iOS e Android, que tem como finalidade o monitoramento da dispersão da ferrugem-     asiática da soja no Brasil. Através de mapas de dispersão em tempo real, permite rastrear a doença durante as safras além da pesquisa por cidades com registros de ocorrências e o acesso a informações detalhadas, auxiliando na tomada de decisão de manejo da doença.

O sucesso no manejo da ferrugem-asiática da soja somente é alcançado mediante a integração das diversas práticas apresentadas, incluindo as culturais, de resistência genética e uso de fungicidas. Essas devem ser ajustadas conforme a lavoura do produtor, a legislação vigente em cada estado e principalmente considerando os fatores necessários para o estabelecimento da doença. Assim, evita-se perdas de produtividade e de renda do produtor, além de proporcionar maior longevidade das medidas de controle e supressão existentes.

Autor: Alex Maquiel Klein – Acadêmico do 9º semestre do curso de Agronomia e Bolsista do grupo PET Agronomia na Universidade Federal de Santa Maria – UFSM

Referências:

ALVES, S. A. M.; FURTADO, G. Q.; BERGAMIN FILHO, A. Influência das condições climáticas sobre a ferrugem da soja. In: ZAMBOLIM, L. (Ed.). Ferrugem asiática da soja. Viçosa: Suprema Gráfica e Editora, 2006. p. 37-59.

GODOY, C. V. et al. Boas práticas para o enfrentamento da ferrugem-asiática da soja. Embrapa Soja-Comunicado Técnico (INFOTECA-E), 2017. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/163428/1/ComTec92-OL.pdf>. Acesso em 08 mar. de 2021.

GODOY, C. V. et al. Ferrugem-asiática da soja: bases para o manejo da doença e estratégias antirresistência. Embrapa Soja-Documentos (INFOTECA-E), 2020. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/213614/1/DOC-428.pdf>. Acesso em 08 mar. de 2021.

ISARD, S. A.; DUFAULT, N. S.; MILES, M. R.; HARTMAN, G. L.; RUSSO, J. M.; WOLF, E. D.; MOREL, W. The effect of solar irradiance on the mortality of Phakopsora pachyrhizi urediniospores. Plant Disease, v. 90, p. 941-945, 2006.

MCGRATH, M. T. What are fungicides? The Plant Health Instructor, 2004. DOI: 10.1094/PHI-I-2004-0825-01.

MELCHING, J. S.; DOWLER, W. M.; KOOGLE, D. L.; ROYER, M. H. Effects of duration, frequency, and temperature of leaf wetness periods on soybean rust. Plant Disease, v. 73, p. 117-122, 1989.

ONO, Y.; BURITICÁ, P.; HENNEN, J. F. Delimitation of Phakopsora, Physopella and Cerotelium and their species on Leguminosae. Mycological Research, v. 96, n. 10, p. 825-850, 1992.

SLAMINKO, T. L.; MILES, M. R.; FREDERICK, R. D.; BONDE, M. R.; HARTMAN, G. L. New legume hosts of Phakopsora pachyrhizi based on greenhouse evaluations. Plant Disease, v. 92, n. 5, p. 767-771, 2008.

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