A mosca-branca (Bemisia tabaci) é um inseto polífago que tem causado perdas severas nas principais regiões produtoras do Brasil, atacando diversos cultivos, como soja, tomate, pimentão, melão, feijão e algodão. Somado a isso, a resistência a inseticidas juntamente com sua ampla disseminação mundial elevam essa praga a um patamar de alerta.

Em relação à amplitude da espécie, B. tabaci é considerada a segunda praga invasiva mais difundida e economicamente importante do mundo, tendo ocorrências na Ásia, África, América, Europa e Oceania. Alimenta-se de 36 gêneros de plantas e apresenta relatos de resistência a 56 inseticidas diferentes, em 165 países (Figura 1) (Willis, 2017).

Figura 1. Distribuição geográfica de B. tabaci, atualizado em 23/11/2020 pela Organização Europeia de Proteção às Plantas (EPPO).

Fonte: EPPO. Confira a imagem original clicando aqui.

Nesse contexto, é importante salientar que a mosca-branca causa danos diretos, pela sucção da seiva, e indiretos, por ser vetor na transmissão de vírus fitopatogênicos e, devido sua excreção nas folhas, favorecimento à formação da fumagina (Figura 2).  Essa doença causada pelo fungo Capnodium sp. reduz a captação dos raios solares nas folhas, reduzindo a taxa fotossintética e provocando a queima da planta pela radiação solar.

Figura 2. a) Planta de soja infectada pelo vírus da necrose-da-haste. b) Planta de soja com a presença da fumagina

Fonte: Adeney de Freitas Bueno. Confira a imagem original clicando aqui.

O controle da B. tabaci tem sido realizado, principalmente, através do uso de inseticidas, que muitas vezes são utilizados de forma indiscriminada, favorecendo o surgimento de populações resistentes a esses compostos. Somado a isso, a mosca-branca possui uma bioecologia que favorece sua disseminação: ciclo curto, alta fecundidade com fêmeas ovipositando entre 100 a 300 ovos e grande capacidade de dispersão. O ciclo de ovo a adulto é de aproximadamente 20 dias (Figura 3), sendo que a longevidade dos adultos varia de uma a três semanas (Alves, 2019).

Figura 3. Ciclo de vida da mosca-branca (Bemisia tabaci).

Fonte: Promip. Confira a imagem original clicando aqui.

A principal ferramenta no manejo da praga é o emprego de inseticidas, em virtude das características biológicas do inseto, o que torna preocupante o surgimento de possíveis casos de resistência (Tomquelski et al., 2020).

Nesse sentido, o que tem tornado seu controle cada vez mais difícil é evolução da resistência a diversos ingredientes ativos comercializados. Estudos de Silva et al. (2009) já confirmaram o desenvolvimento de resistência de B. tabaci a inseticidas de diferentes grupos químicos, tais como: organofosforados, carbamatos, piretroides, ciclodienos, reguladores de crescimento e neonicotinoides.



De acordo com pesquisas gerenciadas pelo IRAC-BR, de uma maneira geral as populações de B. tabaci ainda apresentam suscetibilidade aos inseticidas dos grupos das diamidas e dos ecdisteroides. No entanto, houve redução na suscetibilidade aos inseticidas dos grupos neonicotinoides, mímicos do hormônio juvenil e inibidores de acetil CoA carboxilase.

Ademais, de acordo com De Moura et al. (2013), a mosca-branca é capaz de expressar resistência a inseticidas por meio de diferentes mecanismos, tais como:

  • Aumento na degradação metabólica natural da molécula inseticida (resistência metabólica);
  • Modificação genética ou redução na sensibilidade do sítio de ação do composto (resistência de sítio);
  • Redução na absorção cuticular do composto (resistência na penetração);
  • Detecção ou reconhecimento da substância danosa, evitando o contato com a mesma (resistência comportamental);
  • Sequestro do composto em certos tecidos do organismo.

Portanto, B. tabaci é uma praga que tem causado infestações cada vez mais frequentes em diversas culturas de interesse econômico. Ações preventivas devem ser adotadas para implementar estratégias contra o desenvolvimento de resistência a inseticidas, tais como: programas de monitoramento da resistência, rotação dos produtos de acordo com o modo de ação e rotação de culturas hospedeiras e não hospedeiras. Sendo assim, a mosca-branca representa um problema sistêmico e deve ser acompanhado com muita atenção, tanto por parte da pesquisa quanto dos extensionistas e produtores rurais.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

REFERÊNCIAS:

Alves EB. Mosca-branca uma praga polífaga e de difícil controle. Promip. Julho 26, 2019. Disponível em: https://www.promip.agr.br/mosca-branca-praga-polifaga-dificil-controle/

Comitê de Ação à Resistência a inseticidas (IRAC). Projetos: Mosca-branca, Bemisia tabaci. IRAC – Brasil. Disponível em: https://www.irac-br.org/bemisia-tabaci

De Moura AP, Filho M.M, Guimarães JA. Manejo da resistência da mosca-branca Bemesia tabaci biótipo B (Hemiptera: Aleyrodidae) a agrotóxicos utilizados em hortaliças. Embrapa, Circular Técnica, n 114, 2013. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/956410/1/ct114.pdf

EPPO. 2018. Heliar/Distribuição. EPPO GLOBAL DATABASE. [Online]. 23 de novembro de 2020. Acesso: 14 de fevereiro de 2021. Disponível em: https://gd.eppo.int/taxon/BEMITA/distribution

SilvaI LD, OmotoII C, BleicherI E, DouradoII PM. Monitoring the susceptibility to insecticides in Bemisia tabaci (Gennadius)(Hemiptera: Aleyrodidae) populations from Brazil. Neotropical Entomology, v. 38, n. 1, p. 116-125, 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-566X2009000100013&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Tomquelski GV, Hirose E, Farias A, Czepak C, Pittelkow FK, Ruthes E, Grigolli JFJ, Rattes J, Vivan LM, Goussain Jr MM, Peixoto MF, Tamai MA, Ide MA, Martins MC, Lobak T. Eficiência de inseticidas para o controle da mosca-branca Bemisia tabaci biótipo B (Hemiptera: Aleyrodidae) em soja nas safras 2017/2018 e 2018/2019: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos. Embrapa, Circular Técnica, n. 158, 2020. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1121519/1/CT158.pdf

Willis KJ. Estado das plantas do mundo. Royal Botanic Gardens, Kew (2017). Disponível em: https://issuu.com/fernandoruz/docs/sotwp_2017

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