A mosca-da-haste, Melanagromyza sojae, é uma das principais pragas da soja na Ásia. Recentemente introduzida na América do Sul, representa uma ameaça em potencial para a sojicultura brasileira (HIROSE et al., 2012). Seus danos são especialmente significativos em cultivos de soja de segunda safra, ou “safrinha”, como é denominada no Rio Grande do Sul (ARNEMANN; POZEBON, 2020).

A cultura da soja é o principal hospedeiro de M. sojae, e as plantas atacadas praticamente não apresentam danos externos visíveis (POZEBON et al., 2020). Portanto, a única forma de constatar o dano é a verificação da presença da pupa ou larva no interior da haste principal e ramos secundários da planta. As moscas, fase adulta do inseto, se alimentam perfurando as folhas e sugando os fluidos celulares que extravasam do furo, porém não causam perdas significantes na cultura. O dano mais significativo é causado pelas larvas de M. sojae, as quais produzem galerias no interior das hastes da soja, consequentemente reduzindo a capacidade de translocação da água e nutrientes da planta (VITORIO et al., 2019).

Figura 1. Larva de M. sojae em haste de soja.

Fonte: Grupo de Manejo e Genética de Pragas, UFSM.

 Figura 2. Galeria em haste de soja causada pela presença da larva de M. sojae.

Fonte: Manejo e Genética de Pragas, UFSM.

Segundo Marques et al. (2020), a presença de M. sojae nas plantas de soja pode afetar significativamente o número de grãos, peso de 1000 grãos e rendimento de grãos da cultura. A eficiência do controle de M. sojae varia de acordo com o estágio de crescimento em que as plantas de soja são pulverizadas.

Através de pulverizaçoes semanais em diferentes estágios de crescimento das plantas de soja, observou-se diferentes níveis de densidade populacional da praga na cultura (Figura 3). O tratamento T1, no qual foram realizadas nove aplicações de inseticida, apresentou o maior ganho de produtividade na ausência de ataque de M. sojae. Já o tratamento T10, sem pulverizações de inseticida ao longo do ciclo da cultura, apresentou danos severos causados ​​pela praga devido à ausência de medidas de controle.

Figura 3. Número de aplicações de inseticida e estágios de crescimento das plantas de soja em cada tratamento avaliado, iniciando pelo tratamento T1 (nove aplicações).

Fonte: Marques et al., (2020).

O maior número de grãos por planta foi observado no tratamento T1 (pulverizado a partir do estágio V1), diferindo estatisticamente dos demais. Para o tratamentos restantes, o número de grãos diminuiu conforme aumentou o período de convivência da praga com a cultura. Observou-se também reduções de rendimento de até 61,2%  nos tratamentos que não receberam aplicações de inseticida antes do estágio de crescimento R2 (Figura 4).

Figura 4. Produtividade de soja em resposta aos diferentes períodos de convivência de M. sojae com a cultura, Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2020.

Fonte: Marques et al., (2020).

Além disso, os autores constaram que o número de grãos por  planta  e o peso de 1000 grãos diminuem linearmente conforme aumenta a porcentagem de haste danificada pela praga. Nos tratamentos em que as aplicações de inseticida foram realizadas mais precocemente (início da fase vegetativa), momento em que ainda há poucos danos do inseto no interior das hastes, as plantas chegaram ao final da fase de enchimento de grãos com uma menor percentagem da haste danificada, o que resultou em menores perdas de produtividade pelo ataque do inseto (Figura 5).

Figura 5. Porcentagem da haste principal danificada por M. sojae no estádio fenológico R5.5, Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2020.

Fonte: Marques et al., (2020).

Portanto, é imprescindível que o produtor avalie e monitore sua lavoura para identificar a presença da praga. O uso de tratamento de sementes combinado com aplicações foliares logo após a emergência da cultura protege as plantas durante a fase de desenvolvimento mais sensível ao ataque de M. sojae, o que resulta em menores danos no interior das hastes de soja e, consequentemente, menores perdas de produtividade.

No Brasil, há 397 inseticidas registrados para utilização na soja; no entanto, não há produtos registrados para o manejo de mosca-da-haste (AGROFIT, 2020). Apesar disso, alguns produtos possuem boa eficácia no controle desta praga, como por exemplo clorantraniliprole, fipronil, imidacloprido e tiodicarbe via tratamento de sementes, e imidacloprido, bifentrina e tiametoxam via aplicação foliar (CURIOLETTI et al., 2018).

Foto de capa:  Jonas Arnernam

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



REFERÊNCIAS:

AGROFIT. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: < http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons>. Acesso em: 03.11.2020

ARNEMANN, J. A. et al. Soybean Stem Fly, Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae), in the New World: detection of high genetic diversity from soybean fields in Brazil. Genet. Mol. Res, v. 15, n. 2, p. 1-13, 2016.

ARNEMANN, J. A.; POZEBON, H. Pragas invasivas versus soja no Brasil: pragas em vantagem. 34ª Jornada Acadêmica Integrada. Disponível em: https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/681/2020/07/Jornada-Acad%C3%AAmica-integrada-Edi%C3%A7%C3%A3o-2019_E-book-1.pdf

CURIOLETTI, L. E. et al. Ocorrência, distribuição espacial e métodos de controle de Melanagromyza sojae, em soja. 2016.

GASSEN, D. N.; SCHNEIDER, S.; ALMEIDA, E. de. Ocorrência de Melanagromyza sp.(Dip., Agromyzidae) danificando soja no sul do Brasil. Embrapa Trigo-Documentos (INFOTECA-E), 1985.

HIROSE, E., MOSCARDI, F., HOFFMANN-CAMPO, C. B., & CORRÊA-FERREIRA, B. S. (2012). Insetos de outras regiões do mundo: ameaças. Soja–manejo integrado de insetos e outros artrópodes-praga, 1st ed. Embrapa, Brasília, Brazil, 445-492.

MARQUES, R. P. et al. Melanagromyza sojae Zehntner (Diptera: Agromyzidae) damage on soybean: high yield losses in the New World. Journal of Economic Enotmology. Artigo em trâmite para publicação.

PATIL, R. H. et al. BIOECOLOGY AND MANAGEMENT OF SOYBEAN STEM FLY Melanagromyza sojae (Zehntner)(DIPTERA: AGROMYZIDAE). 2006. Tese de Doutorado. University of Agricultural Sciences GKVK, Banglore.

POZEBON, H. et al. Arthropod invasions versus soybean production in Brazil: a review. Journal of Economic Entomology, v. 113, n. 4, p. 1591–1608, 2020.

TALEKAR, N. S.; CHEN, B. S. The beanfly pest complex of tropical soybean. AVRDC, 1986.

VITORIO, L. et al. First record of the soybean stem fly Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) in Bolivia. Genetics and Molecular Research, v. 18, gmr18222, 2019.

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