A identificação de bactérias mais eficientes para fornecer o nitrogênio para a soja é uma linha de pesquisa que garante a competitividade da agricultura brasileira e a Embrapa é uma instituição de referência no desenvolvimento dessa tecnologia. A tarefa de selecionar as melhores estirpes é um processo demorado, estimado de 5 a 6 anos, mesmo tempo que se leva para obter uma nova cultivar de soja. O procedimento, desde a pesquisa até a liberação comercial, pode ser caracterizado em 5 etapas principais:

  1. O primeiro teste é a seleção entre centenas de bactérias, isoladas em diversas condições, para ver como reagem em situações de multiplicação em ambientes similares aos inoculantes, ou seja, apresentar boa capacidade de crescimento, pois caso demorem muito para crescer, ou forem muito exigentes nutricionalmente, esta população é descartada;
  2. Aquelas que apresentam características promissoras são encaminhadas para ensaios em de casa de vegetação, em substratos, onde só se encontram bactérias e nenhum outro microrganismo, a fim de avaliar o desempenho de cada estirpe;
  3. As que apresentarem melhores resultados são novamente selecionadas e transferidas para teste de campo. Esses ensaios duram de 4 a 5 anos e são conduzidos em todas as regiões produtoras do Brasil para ter certeza de que seu potencial de desempenho seja confirmado;
  4. Selecionadas as melhores estirpes, para finalizar, devem passar pelo teste de sobrevivência nos produtos que, normalmente, são usados pelo agricultor que é o inoculante turfoso ou o inoculante líquido. A verificação é dada pelo desempenho de bom crescimento, similar a etapa 1;
  5. A partir disso vão para a indústria em seu último teste, que é a verificação na elaboração do produto final em escala industrial.

Foi em laboratório, através das etapas seletivas, que se iniciou a seleção das bactérias Bradyrhizobium, responsáveis por fixar o nitrogênio do ar. Atualmente, podemos afirmar que o Brasil é totalmente independente do uso de nitrogênio fertilizante na produção de soja, garantindo altos rendimentos graças a essas bactérias. Em termos comparativos, a soja plantada na década de 1950 tinha como produtividade máxima 1000 kg/ha e hoje é possível ultrapassar 8000 kg/ha. Parte dessa evolução decorre do inoculante, capaz de fornecer a expressiva marca de 300 kg de N/ha. Estes são valores que as bactérias Bradyrhizobium conseguem fornecer para a cultura da soja, são as responsáveis pela formação de nódulos nas raízes da soja e estabelecem o que muitos pesquisadores chamam de uma “verdadeira fábrica de fertilizante nitrogenado”.

O Azospirillum, tradicionalmente usado em gramíneas, é uma bactéria capaz de produzir muito fitohormônios, e também utilizado como inoculante, permitindo o crescimento das raízes das plantas e possibilitando maior absorção de água e nutrientes. Após seleção de duas estirpes, cujo desempenho é excepcional, o grande trunfo para o sucesso foi unir esses dois inoculantes, o Bradyrhizobium e o Azospirillum, na tecnologia chamada de coinoculação.

Gráfico 1: Efeito do nitrogênio acumulado por meio de inoculantes e coinoculante ao longo dos dias após aplicação.

No caso da coinoculação, a Embrapa em parceria com uma empresa de capacidade industrial, lançou o primeiro coinoculante para as culturas da soja e do feijoeiro.

Um aspecto muito importante que tem que ser observado, em relação aos inoculantes é a qualidade. É recomendado que ninguém utilize inoculantes produzidos sem o rigoroso sistema de controle. A garantia de qualidade através de avaliações durante seu processo de produção e antes de ser utilizado no campo evita casos de contaminação que, por sua vez, acarretam no baixo desempenho do inoculante no campo e frustações no resultado final na lavoura.

Imagem 1: Efeito no crescimento das raízes por meio de Azospirillum na coinoculação.

Mesmo em áreas tradicionais de soja é recomendado pela Embrapa a adoção da inoculação, isso por que o ganho médio anual através de seu uso é de 8% na produtividade. E com a coinoculação, os benefícios são ainda maiores, na ordem de 16%.

No Estado do Paraná, uma parceria entre a Embrapa Soja e a Emater, tem comprovado os benefícios na adoção da inoculação e da coinoculação. Os produtores assistidos pela Emater tiveram tanto ganho de produtividade quanto de renda na safra 2017/2018. Produtores que adotaram a inoculação tiveram o aumento médio de R$ 120,00 por hectare, enquanto aqueles que utilizaram a coinoculação tiveram o aumento médio de R$ 390,00 reais por hectare. Esse projeto está se encaminhando para o quarto ano de um trabalho em conjunto de divulgação dessas tecnologias, por meio de técnicos da Emater que recebem dos profissionais da Embrapa um treinamento com relação a tecnologia da inoculação e coinoculação. Além disso, os técnicos levam amostras de inoculantes para demonstração nas propriedades agrícolas, treinando os produtores para uso correto e avaliando os resultados no final da safra.

Autor: André Müllich – Acadêmico do 3º semestre de Agronomia e Bolsista do grupo PET Agronomia na Universidade Federal de Santa Maria – UFSM

Referências 

Boas práticas de inoculação e coinoculação no sistema de produção de soja – Nogueira, Marco A.; Hungria, M – Embrapa Soja.

Ações de transferência de tecnologia em inoculação/ coinoculação com Bradyrhizobium e Azospirillum na cultura da soja na safra 2017/18 no estado do Paraná – Circular técnica 2018.

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