Vamos analisar por partes.

1. OS FATOS: Das três opções que tínhamos colocado na semana passada como possíveis de acontecer, a tendência está sendo a de os EUA e a China se acertarem para um possível acordo. Lembramos que a essência deste acordo não é a soja, mas ela está sendo usada pelo país asiático para cutucar Trump, que precisa se reeleger e cuja boa parte dos eleitores é conservadora, mora no interior dos EUA e depende muito, direta ou indiretamente, da soja.

Por seu lado, o importante para a China é preservar a sua indústria, que é o seu principal ativo. Então, o que aconteceu nesta semana foi que a China fez dois dias de compras de soja americana, num total de aproximadamente 1,5 milhão de toneladas, como um gesto de boa vontade, mas absolutamente insuficiente para reduzir os altíssimos estoques finais de 27,36 MT, mais que o dobro dos da safra anterior, que foi de 11,92 MT.

2. O QUE PRECISARIA ACONTECER: Então, a China precisaria repetir estas compras por mais 10 vezes, pelo menos, para realmente atingir os objetivos dos americanos em termos de soja. Na verdade precisariam ser 15 vezes, porque a média histórica de volume de estoques finais da soja americana fica ao redor de 5,0 MT, que seria o ideal, para Chicago voltar aos patamares de $ 10,50/bushel.

O que pensa o mercado sobre isto? As apostas são de ver para crer. Já foram criadas tantas expectativas sobre isto que ninguém acredita mais. O mercado vai avançar à medida que forem colocadas ordens concretas, como as destas semanas. Se isto não voltar a acontecer, o mercado volta a andar de lado ou até a cair novamente.



3. REPERCUSSÃO SOBRE O BRASIL: Neste meio tempo, o agricultor brasileiro precisa tomar duas decisões importantes:

  1.  sobre a soja que tem disponível, para decidir se vende ou não;
  2. sobre a área de soja a ser plantada, para decidir se aumenta, mantém a mesma ou diminui.

Para decidir sobre a primeira, precisa saber se o preço volta a subir ou não. Para decidir sobre a segunda precisa saber se a China vai comprar soja brasileira no ano que vem.

Os fatores presentes no mercado hoje dizem o seguinte:

a. Se a China continuar a comprar como fez esta semana e no mesmo volume, Chicago pode subir mais 40 cents/bushel para $ 9,20 ou 5,32% e repetir isto tantas vezes quantas forem estas compras. Os prêmios da soja brasileira poderão cair na mesma proporção, algo ao redor de 20 cents/cada vez até ficar negativos, mas tem que ver se as Tradings irão comprar ou não (nesta semana ficaram de fora, então não adianta nada qualquer nível de prêmio). Sua opção seria apenas o mercado interno, que estaria pagando o preço que tem hoje e lhe proporcionando os lucros que descrevemos abaixo;

b. Se a China não comprar mais nada (como fez em abril último, quando deu uma beliscada no mercado e se retirou e ela tem razões para fazer isto justamente para os preços não subirem muito em Chicago), então é possível que ela volte a comprar soja brasileira, voltando também a elevar um pouco os preços oferecidos nos portos. Nossa recomendação é que, se isto acontecer, se aproveite para vender mais um pouco. Claro que tem o fator dólar, que mal mencionaremos aqui, mas as projeções do Relatório Focus para 2020 são de que ele se situe na média de R$ 3,90/3,85, o que puxaria o preço da soja levemente para mais baixo ainda.

4. NOSSA RECOMENDAÇÃO: No primeiro caso, o que fazer com a soja disponível, o agricultor não tem que pensar no número do preço que lhe é apresentado, mas no percentual de lucro que está tendo neste momento.

Com o custo de produção em mãos (R$ 64,35 de custo total, segundo o Deral-PR ou R$ 49,53 de custo operacional, também segundo o Deral), deve comparar com o preço que lhe é oferecido no balcão, neste momento: R$ 73,50 tanto em Cascavel-PR como em Ijuí-RS, para usarmos como referência. Comparado com o custo total o lucro limpo, depois de pagas todas as despesas, seria de 14,22%,o que não é pouco em qualquer ramo; já se comparado apenas com o custo operacional (o que usou apenas para plantar a soja) o lucro subiria para 48,39%.

Mas, o que ele quer mesmo saber é se o preço volta a subir ou não. Esquece. Ninguém sabe isto. É loteria pura. Você tem que decidir sobre o que tem na mão e não sobre possibilidades que podem se confirmar ou não. Lembre-se do mês de agosto, quando o preço oferecido era de apenas R$ 69,00 e não hesite. Deu lucro, venda um pouco! Você jamais terá prejuízo se sempre vender com lucro, mesmo que pequeno. E muita gente que você conhece já teve prejuízo por não aproveitar as oportunidades e querer o preço máximo do ano (lembre-se de 2016 e 2018, para citar os mais recentes).

Outra coisa: se Chicago voltar a $ 10,50/bushel e o prêmio da soja brasileira continuar a +30/35 como está hoje para a safra 2019/20, o seu preço na fazenda continuará sendo de R$ 74,00, com poucas chances de ser maior do que isto. Então,… No segundo caso, sobre aumentar ou não a área, nossa recomendação é positiva: não tenha medo de aumentar, porque a China vai comprar tudo o que plantarmos.

Como sabemos disto? Porque os prêmios da safra nova brasileira caíram bem menos do que os da safra velha, pois estaremos quase sozinhos no mercado e a China deverá comprar regularmente o que oferecermos. E ficará feliz em poder depender menos dos EUA. Não estamos dizendo que os preços explodirão, porque isto ninguém sabe, mas, que há uma grande probabilidade de você manter os lucros atuais, talvez até aumentar um pouco e conseguir escoar tudo o que plantar, sem ficar com produto na mão.

Fonte: T&F Agroeconômica


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