Condições meteorológicas ocorridas em outubro e situação das lavouras de arroz

Diferentemente de agosto e setembro, o mês de outubro superou a média climatológica de precipitação na maioria das regiões, sendo que apenas a região Noroeste do Rio Grande do Sul ficou com precipitação abaixo da média. Na região Central do Estado, os volumes superaram os 400 mm (Imagem 1 A). No mapa de anomalias (Imagem 1 B) observa-se que a maior parte do Estado, sobretudo a Metade Sul (região orizícola), registrou valores de precipitação acima da média.

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Mapa da precipitação acumulada (A) e anomalia da precipitação (B)

Imagem 1: Mapa da precipitação acumulada (A) e anomalia da precipitação (B) durante o mês de outubro de 2019. As escalas de cores indicam o acumulado de precipitação em mm (A) e anomalia de precipitação (B), também em mm, onde valores positivos (azul) indicam precipitação acima da média e valores negativos (laranja-vermelho) indicam precipitação abaixo da média. Fonte de dados: CPTEC/INMET

Além dos volumes terem sido bastante elevados em outubro, a frequência das precipitações também foi alta. Estes fatores fizeram com que a evolução da semeadura do arroz no RS ficasse muito lenta, sendo que em algumas regiões ficou praticamente estagnada (Imagem 2). Este cenário preocupa os orizicultores, visto que a janela ideal para a semeadura do arroz está próxima do fim (até dia 15/11). A boa notícia é que a previsão tem apontado para um período de 7 dias de tempo seco, que vai de 15 a 21 de novembro. Ou seja, as chuvas ainda ocorrerão, mas os prognósticos têm mostrado volumes bem mais baixos.

As frequentes chuvas têm prejudicado também os manejos da lavoura, como as aplicações de herbicida em ponto de agulha e de ureia no seco e a posterior entrada d’água na lavoura. Estes manejos iniciais são cruciais para os produtores manterem a lavoura livre de plantas daninhas, assim como ter o melhor aproveitamento dos insumos colocados no solo.


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Na Imagem 2, observam-se, também, as peculiaridades de cada região orizícola do Estado, onde os produtores da Fronteira Oeste, Campanha e Zona Sul iniciam a semeadura de suas lavouras ainda em setembro. Basta olhar nos gráficos e ver que na data de 04/10, estas regiões já tinham 61,5 %, 32,2 % e 36,0 %, respectivamente, de suas áreas semeadas. Ou seja, a evolução da semeadura vinha sendo melhor que na safra anterior até a primeira quinzena de outubro.

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Evolução da semeadura do arroz no Rio Grande do Sul

Imagem 2: Evolução da semeadura do arroz no Rio Grande do Sul e das seis regionais do Irga, na safra 2019/2020. Dados levantados até o dia 08/11/2019. Fonte: DATER/NATEs, Política Setorial – Irga.

Outro fator que está preocupando é a semeadura da soja, que inicia entre o final de outubro e início de novembro. A frequência e os volumes das precipitações também têm preocupado os produtores, principalmente os que fazem rotação com arroz, por serem áreas mais baixas e de difícil drenagem do solo.

Devido à alta frequência das chuvas, a temperatura média do ar ficou acima do padrão normal, sendo que a temperatura máxima ficou entre 1 e 2 °C acima da média na Metade Norte do Estado. Já a temperatura mínima ficou entre 1 e 2 °C acima da média na Metade Sul e entre 2 e 3 °C acima da média na Metade Norte do Estado.

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas

O Centro Americano de Meteorologia e Oceanografia (NOAA), em seu último relatório (em 10 de outubro), manteve a previsão de Neutralidade climática para os próximos meses. Com base no mapa (Imagem 3) da anomalia da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) observa-se que a região do Niño 3.4 voltou a ficar mais aquecida, com valores próximos a 0,5 °C, mas ainda distante de sustentar um futuro evento de El Niño. Devido à Neutralidade climática, outras oscilações modularão as chuvas no Rio Grande do Sul.

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Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de outubro de 2019.

Imagem 3: Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de outubro de 2019. O retângulo na Imagem mostra a região do Niño3.4, região que os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (índice que define eventos de El Niño e La Niña). Fonte: Adaptado de CPTEC

A região Niño 1+2 continua com anomalias negativas na temperatura, o que desfavoreceria as chuvas no RS. As águas no Oceano Atlântico continuam neutras, ou seja, não interferindo no regime de chuvas aqui no Estado. Mas então, por que choveu tanto no Rio Grande do Sul durante o mês de outubro?

  • Primeiro: outubro é um mês chuvoso e em muitos locais do Rio Grande do Sul, este é o mês mais chuvoso do ano.
  • Segundo: mesmo o El Niño tendo chegado ao fim em agosto, alertava-se que se poderia sentir seus reflexos até outubro.
  • Terceiro: esse aspecto ocorre no Oceano Índico, bastante distante do Brasil. Trata-se do Dipolo do Oceano Índico (DOI), que está na sua fase positiva e muito intensa. Segundo os pesquisadores, esta pode ser a fase mais intensa da história, e é justamente por causa desta intensidade que ele está influenciando a circulação atmosférica do Brasil. Isto se dá através da intensificação dos fluxos de umidade, através do Jato de Baixos Níveis (aquele que canaliza a umidade que vem da região amazônica para a região Sul), criando uma ‘gangorra’ de anomalias, com chuvas acima da média no Sul e abaixo da média no Brasil Central. O DOI começa a se manifestar no início do inverno, tem seu ápice em outubro e novembro, e termina no final do verão. Desta forma, o DOI deverá continuar influenciando no regime de chuvas do Rio Grande do Sul até meados de dezembro.
  • Quarto: é que um fenômeno raro iniciou em meados de agosto, o chamado Súbito Aquecimento Estratosférico. Mas, o que é isso, e qual o impacto dele no Rio Grande do Sul? – Trata-se de um fenômeno raro e com poucos estudos, visto que no Hemisfério Sul é a segunda vez que está ocorrendo. A primeira vez foi em 2002 (havia um El Niño moderado em curso e a primavera, setembro a dezembro, foi bem chuvosa). Este fenômeno é responsável pelo repentino aumento da temperatura, em mais de 25 °C, na estratosfera (30 a 50 km acima do nível do solo) acima do Polo Sul, causando mudanças nos padrões dos ventos. Ou seja, este processo causa um colapso do vórtice polar, alterando as correntes de jato (ventos) no Hemisfério Sul, o que favorece maior incursão de ar frio até as latitudes médias (por exemplo, o Rio Grande do Sul).
  • Quinto: está relacionado ao índice AAO (Oscilação Antártica), que ocorre Polo Sul, na Antártica. Alguns estudos têm associado o Súbito Aquecimento Estratosférico à mudança no padrão do índice AAO, que tende a ficar com sinal negativo. Observando o padrão da AAO nos últimos dias, nota-se que está bastante negativo, ou seja, favorecendo as chuvas no Rio Grande do Sul, principalmente na segunda quinzena de outubro em diante, adentrando o mês de novembro. Quando o AAO está com sinal positivo tende a desfavorecer as chuvas no Rio Grande do Sul e quando está com sinal negativo tende a favorecer as chuvas (Imagem 4).
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Índice de Oscilação Antártica (AAO)

Imagem 4: Índice de Oscilação Antártica (AAO). A linha preta indica os valores observados, desde julho de 2019. As linhas vermelhas indicam a previsão para o AAO.  Fonte: https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/precip/CWlink/daily_ao_index/aao/aao.shtml

O índice AAO tem previsão muito curta, de no máximo, 15 dias. No entanto, tem-se uma boa notícia, pois as linhas vermelhas (previsão) estão indicando que o AAO está com tendência de chegar a valores próximos a 0 (zero) ou positivos até metade de novembro. Logo, este fator poderá contribuir para a redução do volume e da frequência das chuvas no Rio Grande do Sul.

Resumindo, em outubro se teve quatro fatores influenciando na chuva do RS, sendo que um estava desfavorecendo as chuvas (Niño 1+2), um estava neutro (Oceano Atlântico Sul) e dois estavam favorecendo as chuvas (DOI e AAO). Isto mostra a complexabilidade do clima e em se fazer a previsão climática em anos Neutros, pois é difícil prever como cada um destes fatores estará daqui dois ou três meses, e qual deles prevalecerá ou terá maior ‘peso’ sobre as chuvas no Sul do Brasil.

Em águas profundas, a 300 metros abaixo da superfície do Oceano Pacífico Equatorial, vem se observando que a área de águas com anomalias positivas tem aumentado (Imagem 5). As águas com anomalias negativas, que tem dado suporte àquele resfriamento em superfície, na região do Niño 1+2, parecem estar cada vez mais enfraquecidas. Já a parte de águas quentes tem se intensificado, e sustentou a volta do aquecimento da região Niño 3.4 no mês de outubro (ver Imagem 3). Sabe-se que se a região Niño 1+2 ficará com anomalias positivas, o Rio Grande do Sul poderá ter chuvas regulares durante o final da primavera e no verão.

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Temperaturas das águas subsuperficiais na região do Oceano Pacífico Equatorial

Imagem 5: Temperaturas das águas subsuperficiais na região do Oceano Pacífico Equatorial (°C), variando de 0 a 300 metros de profundidade. A figura mostra os cinco últimos gráficos, de 10/09 a 30/10 de 2019. As flechas indicam como ocorre a movimentação dessas massas de águas, abaixo do nível da superfície do oceano.

Com relação à temperatura do ar, a perspectiva é de que oscilem dentro do padrão normal durante o restante da primavera ou até abaixo do normal, em alguns momentos. Ou seja, manhãs de temperaturas amenas e tardes com temperaturas mais altas. Durante o verão, espera-se que as temperaturas fiquem dentro do normal.

Previsão para a precipitação no trimestre novembro, dezembro e janeiro

Como já mencionado neste boletim, as previsões de longo prazo ficam prejudicadas durante os períodos de Neutralidade climática e, por isso, se observam diferenças entre as previsões dos diversos modelos. Neste boletim, serão apresentados os resultados de dois modelos: o do INMET-UFPel e o CFSv2-NOAA, os quais divergem um pouco na previsão da chuva para o próximo trimestre (Imagem 6).

Novembro: é o mês em que os modelos mais divergem. O do INMET-UFPel prevê chuva dentro do normal na Metade Sul do Rio Grande do Sul, enquanto o modelo CFSv2-NOAA prevê chuvas entre 60 e 80mm acima do padrão normal para a região de fronteira com o Uruguai. As previsões já sinalizam redução na frequência e nos volumes das precipitações para a segunda metade do mês.

Dezembro: os dois modelos prevêm que as chuvas ficarão dentro da média climatológica.

Janeiro: em um primeiro momento, os mapas parecem divergir. No entanto, as anomalias de precipitação do modelo CFSv2-NOAA são dadas em milímetros por dia, ou seja, é necessário multiplicar o valor da legenda por 30 (30 dias). Dessa forma, verifica-se que as anomalias positivas de precipitação estão pouco acima da média, no máximo +30 mm. O que poderia se arriscar a dizer que as chuvas ficariam dentro de um padrão normal para janeiro.

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Anomalias

Imagem 6: Normal Climatológica (A, D e G) e anomalia de precipitação dos modelos INMET/UFPel (B, E e H) e CFSv2-NOAA (C, F e I) para os meses de novembro, dezembro de 2019 e janeiro de 2020, respectivamente, para o Rio Grande do Sul. Fonte: Adaptado de CPPMet-UFPel/INMET

Segundo o IRI (Universidade de Columbia, EUA), existe 60% de probabilidade da fase Neutra continuar até o final do verão de 2020. Segundo as simulações do IRI, as precipitações deverão ficar dentro do normal ou um pouco acima até o final da primavera.

Ao produtor, pode-se dizer que estas previsões não são satisfatórias, visto que não se pode dar certeza de quais serão as condições meteorológicas em janeiro e fevereiro, meses importantes para a obtenção de altas produtividades de arroz e de soja. O que se espera para os meses de verão, é que as chuvas ocorram de forma mais espaçada, que com as altas temperaturas do período, tendem a evaporar do solo mais rapidamente. O que não se descarta, é a ocorrência de períodos mais secos intercalados com períodos chuvosos, como ocorreu na safra passada. Diante de todas estas dúvidas com relação às previsões de longo prazo, ressalta-se a importância do acompanhamento da previsão do tempo e climática para os próximos meses.

Autora: Jossana Cera é meteorologista, doutora em Engenharia Agrícola pela UFSM e consultora do Irga

Fonte: IRGA

Texto originalmente publicado em:
IRGA 
Autor: Jossana Cera

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