Desde a implantação até a colheita, a cultura da soja pode sofrer ataques de diversas pragas. O conhecimento do impacto dos insetos na lavoura é essencial para que as ações preventivas e as técnicas de manejo sejam implementadas adequadamente. O monitoramento e reconhecimento das principais pragas, associados às ferramentas disponíveis para manejo integrado de insetos são aspectos fundamentais para a proteção da lavoura.


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Helicoverpa armigera 

A Helicoverpa armigera é uma lagarta que vem surpreendendo produtores e pesquisadores pelo seu poder de destruição, causando prejuízos, principalmente às lavouras de feijão, soja e algodão. Essa praga está entre os principais problemas enfrentados nas lavouras a partir do ano de 2013.

É conhecida também como lagarta do velho mundo, devido a sua existência na região sul da Europa, China, Índia e Austrália. O Brasil foi o primeiro país das Américas a registrar a ocorrência deste inseto, onde foi relatada pela primeira vez nos estados de Goiás, Mato Grosso, Bahia e Paraná. Poucos meses após ser relatada no Brasil a praga também foi encontrada na Argentina e no Paraguai. Até então, a H. armigera era considerada como praga quarentenária, ou seja, não existia no Brasil, porém era classificada como de alto risco para a agricultura no país.

Identificação da Helicoverpa armigera 

A identificação oficial desta lagarta ocorreu em 2013 e na mesma safra a Embrapa Londrina realizou o mapeamento da mesma, sendo o processo final de uma série de problemas ocorridos na safra 2012/2013, iniciando em novembro de 2012 na região norte do estado do Mato Grosso e culminando no oeste baiano no início de 2013, agravado fortemente por veranicos simultâneos que não somente favoreceram a praga, mas também comprometeram o controle da mesma.

Até então, existia uma grande incerteza sobre a identificação da praga, pois existiam dúvidas se tratava-se da lagarta da maçã do algodoeiro (Heliothis virescens) ou da Helicoverpa zeae, ambas existentes no Brasil, mas de certo modo, mais “fáceis” de se controlar.  O que se notava na época, era a grande dificuldade de identificação.

Helicoverpa zeae é muito conhecida, na cultura do milho é chamada de lagarta da espiga do milho e em várias culturas como a do tomate é conhecida como broca grande do tomateiro.  As duas espécies de Helicoverpas são similarese a forma correta de identificação é através de análise de DNA ou de análise criteriosa a nível microscópico do aparelho genital do adulto masculino.

Quando a praga foi identificada como Helicoverpa armigera, todas as atenções se voltaram para a Austrália, onde a agricultura apresenta similaridades com a nossa e onde a praga há alguns anos havia sido responsável por um dos maiores desastres na produção agrícola daquele país.


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Os ovos de H. armigera medem cerca de 0,4 a 0,6 mm de comprimento e 0,4 a 0,5 de largura, com um aspecto branco-amarelado brilhante, mudando para marrom-escuro próximo à eclosão. As larvas nos primeiros instares variam a coloração de branco-amarelado a marrom-avermelhado. A cápsula cefálica, protórax e pernas possuem coloração de marrom-escuro a preto. As fêmeas ovipositam durante a noite, preferencialmente na parte abaxial da folha ou nos talos, flores, frutos e brotações terminais.

O período de incubação leva cerca de 3,3 dias, o período larval pode durar de 2 a 3 semanas, dependendo das condições climáticas. Possui alta capacidade de dispersão e adaptação a diferentes cultivos. A lagarta migra para o solo próximo da fase de pupa, que dura entre 10 a 14 dias e o estádio de adulto pode durar conforme viabilidade de comida (néctar, sacarose), peso da pupa e temperatura.

A longevidade das fêmeas dura em média 11,7 dias e os machos de 9,2 dias, sendo que cada fêmea pode colocar de 2.200 até 3.000 ovos.

À medida que a larva cresce, adquire diferentes colorações, podendo variar do amarelo-palha ao verde. Possui linhas laterais finas, de cor branca e no último instar a larva pode medir de 30 a 40 mm de comprimento.

  • Pupa: Marrom-escuro e mede de 14 a 18 mm de comprimento;
  • Adulto: Fêmeas possuem asas anteriores amareladas e machos asas cinza-esverdeadas. Asas posteriores claras apresentando borda marrom.

A lagarta pode ser diferenciada pela presença de pelos brancos na parte frontal, pintas (protuberâncias) no formato de cela na parte superior após as patas e tegumento levemente coriáceo.  Esta lagarta possui diversas tonalidades de cor, variando do amarelo opaco, verde, verde escuro a negra.  Outra característica desta lagarta é que, quando perturbada, ela recolhe a parte da cabeça entre as “patas” dianteiras, conforme a Figura 01. Essa característica distingue a Helicoverpa das demais lagartas.

Figura 1: Características que distinguem Helicoverpas das demais lagartas.

Fonte: Pioneer sementes Brasil.

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Danos causados pela lagarta

Os danos estimados nas culturas das regiões mais afetadas, no ano em que a lagarta foi identificada no país foram os seguintes:

  • Soja: de 30 a 40%;
  • Algodão: de 25 a 30%;
  • Milho: de 3 a 5%.

 No Oeste da Bahia, estimou-se um prejuízo de 1,7 bilhões de reais na safra 2012/2013 devido ao ataque da praga.

As vias de ingresso da Helicoverpa armigera nas plantas são a parte aérea (flor, folha, gemas, fruto/vagem, estruturas reprodutivas e pontos de crescimento). Os estágios imaturos (lagartas) alimentam-se em todos os estágios de desenvolvimento da planta, danificando todas as estruturas. A preferência de consumo são as flores grãos de legumes jovens, mas podem alimentar-se também de folhas  e ramos em soja.

Figura 2: Danos de Helicoverpa armigera em folhas da cultura da soja.

Fonte: DuPont Pioneer.

 

Figura 3_ Dano de Helicoverpa sp em legumes de soja

Em trabalho realizado por Stacke, et al., (2018), foi colocado que as lagartas consomem flores e legumes em início de desenvolvimento; legumes e grãos completamente desenvolvidos; em alguns casos há o consumo de parte do legume ou grão, sendo uma porta de entrada para fungos; além da destruição de pontos de crescimento da planta, o que reduz a habilidade da planta em compensar danos. E ainda, a intensidade dos danos depende do estágio de maturação e do potencial produtivo da soja, das condições climáticas e principalmente da densidade da praga na área.

No trabalho, os autores observaram que durante as avaliações as plantas foram estratificadas em terços, o que proporcionou um melhor entendimento do local onde as lagartas causam mais injúrias, ficando demonstrado que lagartas de H. armigera danificam um maior número de legumes no terço médio da planta, seguido pelo terço superior e inferior (Figura 4).

Figura 4. Percentual de legumes danificados/m², em cada terço da planta, por densidades de Helicoverpa armigera nos diferentes estágios reprodutivos da cultura da soja. R2 – 2013/14 e 2014/15 (A), e R5.1 – 2013/14 e 2014/15 (B). Letras iguais indicam que não houve diferença significativa entre as médias (Teste de tukey, P = 0,05) (Adaptado de Stacke et al., 2018).

Fonte: Stacke et. al., (2018).

Por fim, os autores colocam que tanto no estágio R2 como no R5.1 ocorreram reduções no número de legumes/m² e número de grãos/legume em reflexo ao aumento da densidade populacional. No estágio R2, verificou-se que nas menores densidades de H. armigera ocorreu compensação pela planta, com a produção de novos legumes. O aumento da densidade populacional de H. armigera, diminuiu o peso de 1000 grãos no estágio R2 e aumentou o peso dos grãos no estágio R5.1, mais uma vez demonstrando que a planta tentou compensar a perda de legumes e grãos.

Para acessar o trabalho completo clique aqui.


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Controle:

Tem-se observado bons níveis de controle de sojicultores usando a seguinte sequência de estratégia de manejo para controle de Helicoverpa:

  • Dessecação antecipada;
  • Monitoramento e tratamento com inseticidas específicos (atualmente já existem inúmeros inseticidas registrados para controle)  para mastigadores caso necessário;
  • Alguns inseticidas com controle satisfatório: os inseticidas flubendiamida, clorantraniliprole, espinosade, clorfenapir, indoxacarbe, metoxifenozida, baculovírus (HzSNPV) e Bt (var. kurstaki HD-1) apresentam desempenho satisfatório para o controle de Helicoverpa armigera em soja.Confira trabalho completo clicando aqui.
  • Monitoramento na emergência das culturas;
  • Observar os níveis de danos estabelecidos.

Dentro do controle, é muito importante a tecnologia de aplicação de defensivos. Listamos abaixo algumas dos requerimentos para que se faça uma ótima aplicação:

  • Umidade Relativa: maior ou igual a 60%;
  • Velocidade do Vento: menor que 13 km/h;
  • Hora do dia: normalmente para se atingir a umidade relativa e a velocidade do vento citada anteriormente, os melhores horários são a noite, devendo ser evitado nos dias quentes aplicar das 10 às 16 hs;
  • Vazão: muito relativa de acordo com a ponta de aplicação;
  • Procure trabalhar com produção de gotas pequenas, pois estas gotas têm maior capacidade de atingir a parte inferior da planta.

Algumas dicas que podem auxiliar o produtor:

  1. Deve-se monitorar as lavouras antecessoras ou mesmos lavouras de inverno, utilizar o Manejo Integrado de Pragas como premissa básica de controle, principalmente evitando produtos pouco seletivos a inimigos naturais como os organofosforados e piretróides.
  2. A utilização de lavouras Bt é fundamental para esse manejo, e é importante lembrar-se da importância de se realizar o plantio das áreas de refúgio para auxiliar na manutenção da tecnologia, considerando-se os percentuais indicados para cada tecnologia utilizada.
  3. A utilização de bioinseticidas como baculovírus ou fungos entomopatogênicos específicos para esses tipos de lagartas é uma prática com excelente efetividade, como percebido no caso do uso desses produtos nas lavouras de sorgo na Austrália.
  4. Depois das lavouras instaladas, monitorar com pano de batida ou armadilhas.

Figura 5: Níveis de ação para o controle de Helicoverpa armigera nas diferentes cultura com inseticidas químicos.

Fonte: Embrapa

Leitura complementar utilizada: Embrapa, Pioneer, Defesa vegetal.


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Elaboração: Engenheira Agrônoma Andréia Procedi – Equipe Mais Soja.

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