O objetivo do estudo foi verificar se o uso de instrumento para flexionar o ponteiro da soja em dossel fechado, pode melhorar o controle da ferrugem da soja.

Autores: MARCELO G. MADALOSSO1, FILIPE A. DALENOGARE2, JESSICA S. BOFF2, MATEUS C. DORNELES2, CRISTIANO S. BONATO2, LEONARDO A. GOLLO2

Introdução

Trabalho disponível nos Anais do Evento e publicado com o consentimento dos autores.

Uma das principais dificuldades dos produtores rurais é o manejo da ferrugem asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi). O principal dano é a desfolha precoce, impedindo a formação dos grãos e a alta produtividade. Neste ponto, o uso de fungicidas é fundamental, porém existem diversos empecilhos que vem derrubando a eficácia de controle. Muitos deles não estão ligados diretamente aos produtos químicos e sim à tecnologia de aplicação de fungicidas. Matuo (1990), já abordava que é necessário o emprego de todos os conhecimentos científicos para proporcionarem a correta colocação do produto biologicamente ativo no alvo, em quantidade necessária, de forma econômica, com o mínimo de contaminação de outras áreas. Ainda neste tema, o tipo de ponta de ponta usada na aplicação de fungicidas tem resultado direto no tamanho de gotas. Assim, o estudo do espectro de gotas produzidas pelas pontas de pulverização assume grande importância na eficiência de aplicação de produtos fitossanitários (Cunha; Teixeira, 2001). De outro lado, há a grande massa de folhas do topo do dossel da cultura que precisa ser ultrapassado, para atingir as folhas do terço médio e baixeiro. Apenas o uso de gotas finas não tem satisfeito essa necessidade, pois ainda assim resulta em baixa cobertura. Com isso, o uso de mecanismos auxiliares a barra do pulverizador pode melhorar a deposição de gotas no interior da planta (ZHU et al.,2008). Neste contexto, o objetivo do estudo foi verificar se o uso de uma escada como instrumento para flexionar o ponteiro da soja em dossel fechado, pode melhorar o controle da ferrugem da soja.

Material e Métodos

O estudo foi desenvolvido na safra 2018/2019 na granja Santo Antônio, município de Santiago/RS. A soja (M6410) foi semeada utilizado sistema de semeadura direta, com semeadora Semeato (SSM27) de 11 linhas, distribuindo 16 sementes/m linear. A adubação foi de acordo com a recomendação do manual de adubação e calagem para o RS/SC. Os manejos fitossanitários foram realizados de forma a impedir que os efeitos de plantas daninhas e insetos não interferissem no objetivo da pesquisa. O ensaio foi conduzido em delineamento de blocos ao acaso com cinco tratamentos, quatro repetições e todas as aplicações foram com 150L ha-1 de calda. As aplicações foram realizadas com pulverizador costal com seis bicos, pressurizado a CO2. Os tratamentos foram divididos em quatro, além da testemunha sem aplicação (Tratamento 5: T5). No T1, as pontas Hypro Defy Defy 3D® 110015 (245 kPa) foram utilizadas normalmente e no T3, essa mesma ponta junto com um instrumento para movimentar o dossel. O mesmo padrão foi utilizado para a ponta cone TXA8002 (392 kPa) (T2 e T4).

O objetivo do instrumento foi auxiliar fisicamente a penetração de gotas, flexionando o topo do dossel da soja, logo à frente da barra de aplicação. O instrumento utilizado foi uma escada de três metros de comprimento, mesma largura da parcela (FIGURA 1). Foram realizadas quatro aplicações de fungicidas em todo ensaio, sendo duas primeiras de forma tratorizada-convencional com os fungicidas Benzovindiflupir+Azoxistrobina (0,2 Kg.ha-1) + Ciproconazol+Difenoconazol (0,3 L.ha-1) + ésteres alquílicos do ácido fosfórico (0,25 L.ha-1). Nas duas últimas aplicações foram instalados os tratamentos com as diferentes tecnologias de aplicação citadas acima. Para isso, foram utilizados os mesmos fungicidas para a 3° aplicação em todo ensaio, com Fluxapiroxade+Epoxiconazol+Picoxistrobina (0,8L.ha-1) + Fenpropimorfe 0,3L.ha-1 + Status (0,7L.-1) e para a 4° com Fenpropimorfe (0,3L.ha-1) + Oxicloreto de cobre (0,7 L.-1) em todo ensaio.

Todas as aplicações foram realizadas nas melhores condições climáticas, nenhuma ultrapassou a temperatura de 29°C e tampouco inferior a 55% de umidade relativa do ar. A patometria de ferrugem asiática da soja foi realizada conforme escala visual de Godoy et al. (2006), totalizando quatro leituras no decorrer do ciclo da planta. Com base na sumarização destes dados, foi possível elaborar a Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD) (Campbell e Madden,1990), como forma de atenuar as variações de tempo entre as leituras. A eficácia relativa de controle foi confeccionada com equação proposta por Abbott (1925). A colheita do ensaio foi realizada em três linhas de quatro metros com uma colhedora Wintersteiger. Os grãos foram pesados e anotada a umidade. A análise estatística dos dados foi realizada através do software SASM-Agri (V.8,2). As comparações múltiplas entre as médias foram realizadas pelo teste de agrupamento Scott & Knott com nível de 5% de probabilidade.

Figura 1. Uso de escada como instrumento para facilitar a penetração e cobertura de gotas nos terços médio e inferior.

Resultados e Discussão

Os dados encontrados neste estudo mostraram que a quantidade de doença (AACPD), decresceu quando facilitada a penetração de gotas, para as duas pontas trabalhadas. Com isso, a eficácia de controle da ferrugem atingiu diferenciação estatística para cada tratamento. De acordo com Zhu et al. (2008), o grande entrave na aplicação é que o fungicida precisa romper esta barreira imposta pela planta, para melhorar a cobertura no terço inferior. O tratamento menos eficaz foi onde utilizou-se a ponta leque Defy 3D sem auxílio para penetração de gotas (T1), estatisticamente inferior à mesma situação onde foi trabalhado com a ponta cone (T2). Isso pode estar ligado ao fato em que todas as aplicações foram realizadas nas melhores condições climáticas, reduzindo a perda de gotas satélites (muito finas), otimizando a penetração no dossel, diferente da ponta Defy 3D.

Quando foi utilizado um instrumento para flexionar a planta e auxiliar na penetração e cobertura de gotas, os resultados apresentaram respostas positivas no aumento na eficácia. Esses dados corroboram com Prado et al. (2010), que verificou uma contribuição significativa no controle da ferrugem com a utilização de cortina de ar no pulverizador. Brugnera et al. (2013) também encontrou resultados interessantes utilizando cortina de ar e cortina de correntes, em comparação com os tratamentos sem assistência à penetração. No presente estudo, todos os tratamentos com essa assistência melhoraram a performance de controle significativamente, reduzindo a AACPD, tanto com a ponta Defy 3D (T3) como a cone (T4). Segundo Prado et al. (2010), isso ocorre devido à movimentação do dossel da planta, promovendo maiores depósitos nos folíolos da parte inferior e mediana das plantas de soja.

Isso ratifica a dificuldade de desempenho do fungicida quando ele não for colocado diretamente no alvo. Além disso, mostra que a queda de performance dos fungicidas a campo, esta ligado diretamente à tecnologia de aplicação e não somente aos problemas de resistência da ferrugem a fungicidas (Xavier et al. 2015). Os resultados expressivos no controle de ferrugem minimizaram a desfolha e imprimiram maior peso de grão no rendimento final. Todos os tratamentos com o uso do instrumento atingiram maiores produtividades em comparação com a mesma situação sem esta assistência. O mais produtivo do estudo foi o tratamento T4, mostrando que mesmo com a boa penetração de gotas imposta pelo cone, ainda é necessário auxilio para otimizar o desempenho do controle químico.

Figura 2. AACPD, eficácia de controle e produtividade dos tratamentos com e sem instrumento para movimentação do dossel. *1 (Leque Defy 3D110015), 2 (Cone TXA8002), 3 (Instrumento+Leque Defy 3D110015) e 4 (Instrumento+Cone TXA8002).

Conclusões

Este estudo elucida que a queda de controle da ferrugem pelos fungicidas atuais, não esta ligada somente às questões de resistência do fungo, mas também à dificuldade de penetração e cobertura de gotas nos terços médio e inferior. Os melhores controles e produtividades foram nos tratamentos onde foram utilizados uma escada como instrumento para flexionar as plantas de soja e auxiliar fisicamente na penetração e cobertura de gotas.

Referências

ABBOTT, W.S. A method of computing the effectiveness of insecticide. Journal of Economic Entomology, Lanhan, v.18, p.265-267, 1925.

BRUGNERA, E.; FORMENTINI, A. H. B.; WITT, J. S. S.; BOLLER, W.. Horários de aplicações de fungicidas e auxílio à barra em Pulverizações na cultura da soja. XXIII Mostra de Iniciação Científica, UPF, 2013.

CAMPBELL, C. L.; MADDEN, L. V. Introduction to plant disease epidemiology. New York: J. Wiley, 1990. 532p. Capítulo 8. p.193.

GODOY, C. V.; KOGA, L. J.; CANTERI, M. G.. Diagrammatic scale for assessment of soybean rust severity. Fitopatol. bras., Brasília, v. 31, n. 1, p. 63-68, Feb. 2006.

PRADO, E. P.; RAETANO, C. G..; JÚNIOR, H. O. A.; POGETTO, M. H. F. A.; CHRISTOVAM, R.

S.; GIMENES, M. J.; ARAÚJO, D.. Velocidade do ar em barra de pulverização na deposição da calda fungicida, severidade da ferrugem asiática e produtividade da soja. Summa phytopathol., Botucatu , v. 36, n. 1, p. 45-50, Mar. 2010 .

XAVIER, S.A.; KOGA, L.J.; BARROS, D.C.M.; CANTERI, M.G.; LOPES, I.O.N.; GODOY, C.V.

Variação da sensibilidade de populações de Phakopsora pachyrhizi a fungicidas inibidores da desmetilação no Brasil. Summa Phytopathologica, v.41, n.3, p.191-196, 2015.

Informações dos autores

1Engenheiro Agrônomo, Professor Titular, Universidade Regional Integrada, Campus Santiago e St. Ângelo/RS – Brasil, Fone (55) 981367266, madalossomg@gmai.com;

2Estudante de Agronomia da Universidade Regional Integrada, Campus Santiago/RS – Brasil.

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