O processo de aplicação e o tempo

Quando se trata de tecnologia de aplicação, podem haver dúvidas em relação ao que foi recomendado, principalmente no que se refere ao uso dos equipamentos, neste sentido é imprescindível realizar um check-list dos pontos a serem verificados, isso exige paciência e principalmente tempo, porém, é crucial para uma aplicação eficiente a verificação das condições ideais de °C, UR e velocidade do vento, de modo a tomar decisões de forma ágil sobre aplicar ou não, tendo em vista que os insetos, doenças e infestações de plantas daninhas não esperam um horário marcado para se propagarem.

Não são exclusivas situações que exigem uma decisão imediata para realizar as aplicações, contudo, deve-se garantir que os equipamentos estejam em condições adequadas ao uso. Chama muito atenção, quando nos deparamos com realidades em que a limpeza não é priorizada, acarretando inúmeros problemas nas aplicações, podemos citar alguns exemplos encontrados:

  • Bicos e peneiras entupidas
  • Mangueiras obstruídas
  • Presença de restos vegetais próximo aos bicos
  • Tanque com resíduos de produtos

Quando não realizada a correção dos problemas elencados, apesar de que o resultado de cada uma dessas situações poder variar, certamente haverá interferências negativas na aplicação, tornando-a desuniforme, concedendo espaço para o desenvolvimento de pragas e doenças na lavoura e também causando danos localizados, pelo excesso de produto nas regiões concentradas. Tem uma particularidade no último dos exemplos acima, pode haver perdas significativas para a cultura, dependendo o tipo e quantidade de resíduo que houver em tanque. Os resíduos de ingredientes ativos são importantes quando iremos controlar pragas, doenças e plantas daninhas, todavia, quando resolvemos um problema, podemos estar criando outro, em virtude disso a agricultura vem evoluindo constantemente em busca de alternativas, que a tornem equilibrada.

No momento em que o produtor decide realizar um investimento, ao pensar no implemento ou máquina agrícola, leva em consideração para decisão de compra o dimensionamento conforme sua demanda, área e as atividades requeridas ao logo das safras. Após o investimento feito, considera-se no cálculo do resultado dos seus exercícios a depreciação, sendo este um fator chave a ser considerado. Muitas vezes ouvimos a expressão “a máquina se pagou”, significando que após um determinado tempo de uso, todo o custo em relação a ela foi bem diluído.

Mas será que realmente após o tempo de uso a máquina, como um pulverizador por exemplo, que se realiza inúmeras operações ao longo do tempo como dessecação, tratamentos com fungicidas, inseticidas ou herbicidas, efetivamente cumpriu seu propósito? Já que perdas por uso inadequado, via de regra não são consideradas…

Embora, numa realidade de pequena produção, a exemplo, no cultivo de hortaliças, é possível separar em grupos os equipamentos costal de pulverização, para tratamento de doenças fúngicas e outro para aplicação de herbicidas, entretanto, se tratando do cultivo em escala comercial, onde é necessário equipamentos maiores, com elevado custo, não se tem máquinas para cada uma das operações, isso se tornaria inviável financeiramente.

Claramente, uma máquina, dimensionada em uma propriedade tem que ser capaz de realizar todas operações de aplicações ao longo da(s) safra(s), indiferente dos produtos que estão sendo utilizados, pensando nestes termos, a limpeza atenciosa garante a boa operacionalização e também minimiza o risco de perdas, além de poder dar ao investimento uma melhor vida útil, mesmo após sua depreciação financeira completa.



Analogia do copo

Em eventos de pulverização a campo, devemos tomar as devidas precauções, levando em alta consideração a limpeza da máquina; a fim de entender a importância disso, eis aqui uma analogia:

Possuindo um único copo, no qual tomamos várias bebidas

§ 1 – Pela manhã, levantamos e passamos um pouco de café preto, bem forte, colocamos no copo e saboreamos em alguns minutos.

§ 2 – Ao meio dia utilizamos o copo para tomar um suco concentrado de manga, extraída do pé do quintal de casa, fazemos nossa refeição enquanto consumimos o suco.

§ 3 – Final do dia de trabalho, preparamos naquele copo um belo de leite com chocolate em pó, para saborear com biscoitos de milho.

Qual seria sua reação ao tomar tantas bebidas diferentes no mesmo copo sem lavar? Será que o gosto da próxima bebida será fidedigno? Misturar manga com leite pode até parecer suicídio (seria?) para algumas pessoas, um mito, mas certamente algo que alguns jamais fariam! Mas porque quando tratamos das aplicações fitossanitárias, negligenciamos nossa atenção, deixando de lavar adequadamente o pulverizador?

Ficam depositados no sistema, resíduos dos produtos utilizados a cada nova calda, tornando de fundamental importância, realizar a lavagem ao final de seu uso, caso não realizada de maneira adequada, esses resíduos tem o potencial de causar danos aos cultivos. Podemos ter exemplos, como do fungicida composto por triazóis (difenoconazol e ciproconazol), recomendado para a cultura da soja, sua presença residual em tanque é aplicado sequencialmente na cultura do milho, poderá haver pontuações necróticas nas folhas do cereal, em virtude da fitotoxidade, que por sua vez poderá reduzir a produtividade do milho.

Por certo, nem todos produtos tem grande potencial de causar danos severos, que acarretem altas perdas, todavia, é sabido que alguns produtos em suas especificas formulações, possuem uma maior aderência a parede do tanque armazenador, a exemplo, no caso do herbicida pré-emergente saflufenacil, que mesmo após uma breve lavagem (não tríplice e sem agentes limpantes) do tanque, sucedendo seu uso, haverá resíduos com potencial de afetar drasticamente a cultura a ser explorada, causando danos irreversíveis, exigindo uma maior atenção, se fazendo o protocolo de limpeza corretamente.

Se tratando da oleaginosa com maior área plantada no Brasil, somando as questão dos tipos de produtos utilizados para aplicações, existe hoje no mercado a nova plataforma de tecnologia desenvolvida para soja, Intacta2 Xtend®, que apresenta muitos benefícios ao produtor, além do controle eficaz contra as seis principais lagartas que causam potencial dano a cultura e da capacidade da planta suportar o uso do herbicida sistêmico glifosato, foi adicionado resistência ao auxínico dicamba, este herbicida hormonal, difundido por um curto período de tempo na agricultura em nosso país na década de 1970, no qual, foi resgatado sua usabilidade para os dias atuais, melhorando sua formulação, para ampliar ainda mais seu uso.

Apesar dos constantes esforços da pesquisa e desenvolvimento, os riscos do proveito em escala deste produto deve ser considerado, se tratando dos fatores relacionados à deriva e também da limpeza correta do tanque de pulverização, pois esse fitossanitário possuí capacidade de causar danos mesmo com baixa presença residual.

Para evitar problemas oriundos da limpeza do pulverizador, cada produtor deve conhecer profundamente a realidade de uso de seus equipamentos, assim como os produtos utilizados no decorrer das safras, tendo o controle rigoroso dos processos de aplicação, além de evitar perdas de produtividade, prolongará a vida útil do seu maquinário, para isso devemos adotar a lavagem tríplice.

Lavagem tríplice

Seu conceito está disseminado através do correto descarte das embalagens de agroquímicos, semelhantemente, realiza-se a lavagem tripla do tanque de pulverização, enchendo até a capacidade nominal, com a máquina ligada e imóvel, ligamos o agitador durante algum tempo (20-30min), então é acionado o sistema de pulverização, permitindo que a água saia através dos bicos, como se estivesse aplicando.

A água é descartada, preferencialmente onde foram realizados os trabalhos, antes do segundo enchimento, retira-se todas as partes removíveis (bicos, variados tipos de filtros, antigotejadores e fluxometros) e lava-se separadamente com mais atenção; o processo de encher e esvaziar o tanque se repete num total de três vezes, sendo as duas posteriores, sem as partes removíveis, lembramos que a quantidade de água pode ser reduzida pela metade conforme o tipo de material que constitui o tanque, como exemplo os de aço inoxidável, que possuem menor aderência dos produtos, que os de fibra de vidro que tem porosidades, onde se depositam os resíduos, não obstante, devemos considerar o tipo de produto usado nas aplicações, se possuem maior residual ou dificuldades de remoção, devemos sempre garantir uma lavagem eficiente.

Na primeira etapa de lavagem do tanque pulverizador, deve-se lançar mão de alguns produtos comercial, formulado com tensioativos, de pH base ou ácido e também substancias ésteres, que diferente do álcool propriamente, não causam o forte ressecamento, necessariamente nas partes flexíveis do sistema ou materiais constituídos de ligas plásticas. Os agentes de limpeza, indicados para realização das lavagens do pulverizador, adicionados com a água, facilitam a remoção de resíduos dos diversos produtos usados para formulação da calda. Adicionalmente a esses produtos, externamente ao pulverizador, pode-se fazer uma limpeza mais especifica, de descontaminação, com produtos qualificados para neutralizar os ingredientes ativos, contudo, este tipo de processo demanda produtos de uma ordem econômica mais elevada, sendo necessário o reconhecimento da necessidade desta prática diária.

Adotando boas práticas

Para favorecer as boas práticas, de modo que se tornem rotina, especificamente a limpeza do pulverizador, deve ser considerada no cronograma de trabalho. Muitas vezes quando calculamos o tempo para realizar uma aplicação, nem sempre o tempo para limpeza está incluído, sendo assim, caso a tarefa seja requerida por um líder, e a equipe despreparada, isso pode gerar ansiedade, pressa, falta de atenção e até mesmo conflitos entre os envolvidos na atividade. Dominar as necessidades operacionais e ter um maior controle das aplicações, vai acrescentar eficiência de trabalho e equilíbrio comunicativo da equipe encarregada, tornando preciosa cada uma das etapas, sendo a lavagem do pulverizador tão importante quanto a aplicação de proteção em si.

Confira o artigo original clicando aqui.



Redação: Erexauá Michalski de Almeida, Engenheiro Agrônomo

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