A mosca-da-haste da soja, Melanagromyza sojae (Figura 1), é endêmica de diversas regiões do mundo, exceto nas Américas do Norte e do Sul. Considerada uma das principais pragas da cultura na Ásia e África, é citada como uma ameaça potencial para a produção de soja no Brasil e América do Sul (POZEBON et al. 2020). Em 2016, Arnemann et al. confirmaram a ocorrência da praga atacando lavouras no Sul do Brasil. Subseqüentemente, a espécie foi detectada no Paraguai (2017), Bolívia (2019) e Argentina (2020).

Figura 1. Adulto (esquerda) e larva (direita) de M. sojae

Fonte: VITORIO et al. (2018). Confira a imagem original  clicando aqui

Em países como Taiwan, Indonésia, China e Índia, parasitóides de ocorrência natural atuam de forma significativa na redução de populações de M. sojae. O parasitismo ocorre na fase larval, com o parasitóide emergindo da pupa da mosca-da-haste; assim, embora a injúria da larva não seja evitada, a intensidade das infestações subseqüentes é reduzida. Apesar das taxas de parasitismo chegarem a 70%, o índice de sobrevivência das larvas e conseqüente dano em soja é elevado. Para saber mais sobre o controle biológico de M. sojae utilizando parasitóides, acesse o texto: Controle biológico de mosca-da-haste em soja [clique aqui para acessar].

Populações de M. sojae também podem ser manejadas utilizando cultivares de soja com características que desfavoreçam a sua ocorrência e desenvolvimento. Cultivares com folíolos maiores, pouca pilosidade, galeria interna de maior diâmetro e alto teor de umidade nas fases iniciais de desenvolvimento são mais suscetíveis ao ataque de mosca-da-haste. Tais características podem ser consideradas na escolha das cultivares e também nos processos de melhoramento genético. Para saber mais sobre a suscetibilidade das cultivares de soja à M. sojae, acesse o texto: Cultivares de soja tolerantes à mosca-da-haste [clique aqui para acessar].

Outra tática de manejo da mosca-da-haste consiste em evitar semeaduras tardias, de modo que o ciclo de soja não seja encurtado. O ciclo mais longo permite maior acúmulo de matéria seca e proporciona às plantas maior capacidade de suportar as injúrias decorrentes do ataque de M. sojae (TALEKAR, 1989).

A aplicação de inseticidas químicos continua sendo a forma de controle de insetos-praga mais utilizada em lavouras de soja no Brasil. Embora ainda não hajam programas de manejo voltados especificamente para mosca-da-haste, é possível que as populações de M. sojae sejam indiretamente suprimidas por tratamento de sementes e aplicações foliares visando outras pragas de início de ciclo, como Sternechus subsignatus, Elasmopalpus lignosellus e Phyllophaga capillata.

O uso de inseticidas na semeadura (via tratamento de sementes ou no sulco de semeadura), combinados com aplicações foliares logo após a emergência da cultura, protege as plantas durante a fase de desenvolvimento mais sensível ao ataque de M. sojae. Alguns inseticidas que apresentam controle sobre M. sojae citados na literatura não são comercializados no Brasil (p.ex. quinalfós, endrin, ometoato, monocotrofós) (TALEKAR; CHEN, 1985). Por outro lado, os inseticidas tiametoxan, imidacloprido, clorantraniliprole, espinosade e clorpirifós estão registrados no MAPA para uso no país e apresentam potencial para controle de mosca-da-haste. Os inseticidas piretróides, como a cipermetrina, apresentam baixa eficiência de controle para essa praga.

Embora hajam 397 inseticidas formulados registrados para utilização na soja no Brasil, nenhum deles é registrado para o manejo de mosca-da-haste (AGROFIT, 2020). Apesar disso, alguns produtos possuem boa eficácia no controle desta praga, como clorantraniliprole, fipronil, imidacloprido e tiodicarbe via tratamento de sementes, e imidacloprido, bifentrina e tiametoxam via aplicação foliar (CURIOLETTI et al., 2018). Os autores supracitados recomendam a aplicação de clorantraniliprole via tratamento de sementes, seguido por uma aplicação foliar de clorpirifós em até 10 DAE (dias após a emergência), seguida por uma nova aplicação dentro de um intervalo inferior a 10 dias.

De forma geral, o controle químico de M. sojae no Brasil e América do Sul permanece pouco explorado. Faz-se necessária a realização imediata de testes de eficiência com diferentes produtos inseticidas e sob diferentes condições de cultivo, visando o aprimoramento dos programas de manejo para essa praga emergente e altamente danosa à cultura da soja.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



REFERÊNCIAS

AGROFIT. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: < http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons>. Acesso em: 03.11.2020

ARNEMANN, J. A. et al. Soybean Stem Fly, Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae), in the New World: detection of high genetic diversity from soybean fields in Brazil. Genetics and Molecular Research, v. 15, gmr.15028610, 2016a.

CURIOLETTI, L. E. Ocorrência, distribuição espacial e métodos de controle de Melanagromyza sojae, em soja. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria. 2016. Disponível em https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/17616/DIS_PPGEA_2016_CURIOLETTI_LUIS.pdf?sequence=1&isAllowed=y

CURIOLETTI, L. E., ARNEMANN, J. A., MURARO, D. S., MELO, A. A., PERINI, C. R., CAVALLIN, L. A., GUEDES, J. V. C. Primeiras descobertas sobre o controle da mosca-do-caule da soja (SSF) Melanagromyza sojae na América do Sul. Australian Journal of Crop Science. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/325391265_First_insights_of_soybean_stem_fly_SSF_Melanagromyza_sojae_control_in_South_America

MARQUES, R. P. et al. Melanagromyza sojae Zehntner (Diptera: Agromyzidae) damage on soybean: high yield losses in the New World. Journal of Economic Enotmology. Artigo em trâmite para publicação.

POZEBON, H. et al. Arthropod invasions versus soybean production in Brazil: a review. Journal of Economic Entomology, v. 113, n. 4, p. 1591–1608, 2020.

TALEKAR, N. S.; CHEN, B. S. Soybean in tropical and subtropical cropping systems. Taiwan: Asian Vegetable Research and Development Center, p. 257-271, 1985

TALEKAR, N. S. Characteristics of Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) damage in soybean. Journal of Economic Entomology, v. 82, p. 584-588, 1989.

VITORIO, L. et al. First record of the soybean stem fly Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) in Bolivia. Genetics and Molecular Research, v. 18, gmr18222, 2019.

Foto de capa: Lucas Vitório

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