Os danos ocasionados pela mosca-da-haste (Melanagromyza sojae) são resultantes da sua alimentação no interior das hastes das plantas de soja (Figura 1). Dessa forma, os sintomas expressos pelas plantas não são facilmente perceptíveis, fazendo com que a ocorrência desta praga muitas vezes passe despercebida pelos agricultores. Por ser uma praga invasiva recentemente confirmada no Brasil, há escassez de informações a respeito do seu potencial de redução na produtividade da cultura e de práticas de manejo integrado.

Figura 1. Adulto de M. sojae ovipositando (esquerda) e pupa no interior da galeria formada (direita)

Fonte: VITORIO et al. (2018). Confira a imagem original clicando aqui

Em termos de quantificação de injúria, existe uma relação direta entre a porcentagem de haste danificada pela larva e a redução em estatura da planta (cm) e produção (g por planta). Nos países asiáticos, onde a praga é endêmica, dados da década de 80 indicavam que essa relação era de 0,18 cm de altura e 0,11 g de grãos reduzidos para cada ponto percentual de haste danificada. Para as condições de cultivo do RS, resultados preliminares apontam para uma redução ainda mais significativa: 0,31 cm de altura e 0,57 g de grãos para cada ponto percentual (Figura 2).

Figura 2. Estatura (cm) e produção de grãos (g) por planta de soja de acordo com a porcentagem de haste danificada por M. sojae no estágio R5.5 da cultura.

Fonte: Marques et al. (2020)

Populações de M. sojae podem ser manejadas utilizando cultivares de soja com características que desfavoreçam a sua ocorrência e desenvolvimento. Segundo Chiang e Norris (1983), alguns parametros morfológicos e fisiológicos das plantas de soja influenciam sua capacidade de resistência ao ataque de M. sojae. Nos estágios iniciais da cultura (VE a V2), as infestações por mosca-da-haste são influenciadas pela densidade de tricomas na superfície abaxial das folhas, pelo teor de umidade destas e, principalmente, pelo diâmetro da haste principal. O diâmetro da medula central determina o comportamento de alimentação e abertura de galerias pelas larvas (VAN DEN BERG et al. 1998). A produção de fibras lignificadas pelas plantas de soja, tornando as hastes mais grossas e rígidas, representa o principal mecanismo de defesa contra M. sojae.

As cultivares de soja resistentes ao ataque de mosca-da-haste apresentam a diferenciação do xilema secundário e das fibras do esclerênquima de forma antecipada no seu ciclo de desenvolvimento, em relação às cultivares suscetíveis (CHIANG; NORRIS, 1983). Essa produção de fibras lignificadas reduz o diâmetro da medula no centro das hastes, local de alimentação das larvas de M. sojae, impedindo fisicamente a sua proliferação. Portanto, cultivares de soja com medula estreita apresentam tolerância ao ataque de M. sojae pelo impedimento físico à abertura dos túneis. Embora as variedades suscetíveis à M. sojae tenham uma diferenciação posterior e muito menor do xilema secundário quando comparadas às resistentes, a taxa de diferenciação é acelerada nas partes mais antigas das plantas suscetíveis.

O maior tamanho e menor pilosidade dos folíolos em certas cultivares de soja, além do alto conteúdo de umidade da haste nas fases iniciais de desenvolvimento da planta, favorecem a incidência de M. sojae (TALEKAR; CHEN, 1985). Além disso, o comprimento dos entrenós em variedades de soja suscetíveis à M. sojae é pelo menos o dobro das variedades resistentes. Entrenós mais curtos durante os estágios iniciais de desenvolvimento das plantas proporcionam uma suspensão do alongamento internodal e uma diferenciação antecipada do esclerênquima. As células do esclerênquima são caracterizadas por paredes secundárias espessas, frequentemente lignificadas. Dessa forma, os tecidos vegetais tornam-se mais resistentes à mastigação por insetos e mais difíceis de serem digeridos por estes.

Portanto, mesmo nas variedades suscetíveis à mosca-da-haste, a aceleração da diferenciação do xilema secundário e o desenvolvimento de fibras lignificadas causam rigidez na parte inferior do caule, aumentando a tolerância das plantas ao ataque das larvas de M. sojae. Tais características são consideradas na escolha das cultivares e também nos processos de melhoramento genético em países asiáticos. Conforme descrito por Savajii (2006) na Índia, o percentual de plantas atacadas nas cultivares de soja é utilizado para classificar as mesmas como resistentes, moderadamente resistentes, suscetíveis ou altamente suscetíveis.

No Brasil, relatos de campo apontam para diferentes graus de susceptibilidade ao ataque de M. sojae em diferentes cultivares de soja, tais como BMX Fibra 64I61RSF IPRO (menos suscetível) e BMX Compacta 65I65RSF IPRO (mais suscetível). Não obstante, tal estratégia de manejo permanece pouco explorada no país. É urgente e fundamental que se realize uma avaliação da reação das cultivares nacionais ao ataque de M. sojae, possibilitando que o controle cultural seja somado às demais estratégias em um programa de manejo integrado de mosca-da-haste

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

Foto de capa: Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



 REFERÊNCIAS:

CHIANG, H.; NORRIS, M. Physiological and anatomical stem parameters of soybean resistance to Agromyzid beanflies. Entomologia Experimentalis et Applicata, v. 33, n. 2, p. 203-212, 1983.

CURIOLETTI, L. E. et al. Ocorrência, distribuição espacial e métodos de controle de Melanagromyza sojae, em soja. 2016.

MARQUES, R. P. et al. Melanagromyza sojae Zehntner (Diptera: Agromyzidae) damage on soybean: high yield losses in the New World. Journal of Economic Enotmology. Artigo em trâmite para publicação.

SAVAJJI, K. Biology and management of soybean stem fly Melanagromyza sojae (Zehntner) (Diptera: Agromyzidae). Dissertação – University of Agricultural Sciences, Bengaluru, 2006.

TALEKAR, N. S.; CHEN, B. S. Soybean in tropical and subtropical cropping systems. Taiwan: Asian Vegetable Research and Development Center, p. 257-271, 1985

VAN DEN BERG, H. et al. 1998. Response of soybean to attack by stemfly Melanagromyza sojae in farmer’s fields in Indonesia. J. Appl. Ecol. 35: 514-522.

VITORIO, L. et al. First record of the soybean stem fly Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) in Bolivia. Genetics and Molecular Research, v. 18, gmr18222, 2019.

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