Inseticidas são ferramentas essenciais na proteção de culturas agrícolas, inclusive da soja. Os ingredientes ativos disponíveis atualmente são classificados pelo Comitê de Ação contra Resistência a Inseticidas (IRAC) em cerca de 30 grupos diferentes, cada qual apresentando um modo de ação distinto. Hoje falaremos sobre dois grupos de inseticidas que atuam no crescimento e desenvolvimento dos insetos: as benzoilureias e o buprofezin, pertencentes ao Grupo 15 (inibidores da biosíntese de quitina tipo 0) e ao Grupo 16 (inibidores da biosíntese de quitina tipo 1), respectivamente. Para saber mais sobre os inseticidas análogos ao hormônio juvenil (Grupo 7), acesse o texto anterior clicando aqui: https://maissoja.com.br/como-funcionam-os-inseticidas-reguladores-de-crescimento/

Na semana passada, vimos que os inseticidas reguladores de crescimento análogos ao hormônio juvenil (também denominado juvenóides) são empregados na fase de desenvolvimento larval dos insetos, interferindo no processo de ecdise (muda) entre o último estádio imaturo e a fase adulta. Portanto, não são recomendados para o controle de pragas que possuem a fase larval como causadora de danos, como lagartas desfolhadoras: nesse caso, o consumo foliar aumentará com a idade da lagarta, e a mortalidade do inseto por ação do inseticida só ocorrerá durante a metamorfose para a fase adulta.

Por outro lado, as benzoilureias (também denominadas ureias substituídas) são altamente eficientes no controle de lagartas, pois atuam em todas as mudas do inseto, inclusive nas iniciais. Isso ocorre porque a síntese de quitina (processo biológico afetado por esses inseticidas) é necessária em todas as mudas do inseto, independentemente da sua fase de vida (imaturo ou adulto). Para entender melhor como isso acontece, vamos relembrar como ocorre o processo fisiológico de mudança de tegumento (ecdise) em insetos.

No texto anterior vimos que a quitina, um polissacarídeo nitrogenado (C8 H13 O5 N), é um componente estrutural essencial da cutícula dos insetos, conferindo-lhes rigidez. Essa cutícula (parte externa do exoesqueleto) protege os órgãos internos do inseto e precisa ser substituída a cada troca de fase do inseto, já que não ela não pode crescer em tamanho. Essa troca de tegumento (ou edise) ocorre em seis etapas, incluindo a degradação da camada interna da cutícula e o abandono da camada externa (Figura 1). A camada interna é digerida pelo chamado fluido da ecdise, que contém enzimas capazes de degradar as moléculas de quitina. Portanto, a biosíntese de quitina é essencial para que o organismo do inseto produza uma nova cutícula e complete o processo de troca do tegumento (muda). Após livrar-se da cutícula velha, o inseto engole grandes quantidades de ar para expandir a nova cutícula antes que ela endureça e escureça, processo este que pode levar algumas horas.

Figura 1. Processo de mudança de tegumento (ecdise) em insetos.

Fonte: SALGADO, V. L. (2013). Confira a imagem original Clicando aqui

Essencialmente, tanto os inseticidas pertencentes ao Grupo 15 quanto ao Grupo 16 atuam da mesma forma: eles impedem a biosíntese de quitina no inseto durante o processo de muda, resultando num exoesqueleto fraco e com membros deformados, eventualmente levando o inseto à morte. A diferença é que as benzoiluréias (pertencentes ao Grupo 15) controlam insetos da ordem Lepidoptera (ou seja, lagartas desfolhadoras) e alguns da ordem Coleoptera (besouros), enquanto o buprofezin (pertencente ao Grupo 16) atua em insetos da ordem Hemiptera (como pulgões, cigarrinhas, percevejos e outras pragas sugadoras). Em ambos os casos, o processo fisiológico pelo qual a síntese de quitina é inibida (ou seja, o sítio de ação) permanece desconhecido.

O Grupo 15 (benzoilureias) inclui uma série de ingredientes ativos, tais como: lunefuron, novaluron, triflumuron, teflubenzuron, flufenoxuron, diflubenzuron, fluazuron e chlorfluazuron. São inseticidas eficientes no controle de lagartas e besouros, incluindo o bicudo-do-algodoeiro, praga de difícil controle. O custo médio por litro varia de R$ 70,00 (lunefuron) a R$ 140,00 (teflubenzuron) e, no caso do diflubenzuron, até R$ 170,00 (CONAB, 2020). O ingrediente ativo precisa penetrar de forma oral no inseto, por meio da ingestão de tecido foliar tratado com o inseticida. Já o Grupo 16 possui atualmente um único ingrediente ativo: buprofezin, utilizado no controle de sugadores como mosca-branca e cochonilhas, em diversas culturas agrícolas. Trata-se de uma ferramenta importante para rotação com neonicotinoides e prevenção de resistência.

Os inibidores da biosíntese de quitina apresentam baixa toxicidade para mamíferos, mas podem ser altamente tóxicos para artrópodes não-alvo e organismos aquáticos. São moléculas com baixa solubilidade em água e baixo risco de lixiviação. Entretanto, alguns ingredientes ativos pertencentes a esse grupo podem apresentar alta persistência no ambiente e permanecerem ativos mesmo sob baixas concentrações. Portanto, tratam-se de ferramentas eficientes no controle de pragas desfolhadoras e sugadoras, devendo sempre ser utilizados seguindo rigorosamente as recomendações da bula. Na próxima semana, entenderemos o funcionamento de outro importante grupo de inseticidas reguladores de crescimento: os ecdisteróides.

A reprodução desse texto, ou partes dele, deve ser precedida de autorização dos autores e acompanhada de citação da seguinte fonte: POZEBON, H.; ARNEMANN, J. A. Como funcionam os inseticidas inibidores da síntese de quitina? Portal Mais Soja. 2021. Disponível online.

Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



REFERÊNCIAS:

CONAB. 2020. Companhia Nacional de Abastecimento. Preços dos Insumos Agropecuários. Disponível em: https://consultaweb.conab.gov.br/consultas/consultaInsumo.do?d-6983528-p=1&uf=RS&ano=2019&method=acaoListarConsulta&idSubGrupo=33&btnConsultar=Consultar&jcaptcha=L3OQ&idGrupo=9

SALGADO, V. L. 2013. BASF Insecticide Mode of Action Technical Training Manual. Disponível em:https://agriculture.basf.com/global/assets/en/Crop%20Protection/innovation/BASF_Insecticide_MoA_Manual_2014.pdf

IRAC. 2018. Mode of Action Classification Scheme.
Disponível em: https://www.irac-online.org/documents/moa-structures-poster-english/?ext=pdf

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