O ataque das pragas nas lavouras não cessa após a colheita. Durante o período de armazenamento dos grãos podem ocorrer injúrias de insetos-pragas, como caruncho, gorgulho e traças. As sementes estocadas podem ser danificadas, comprometendo sua qualidade e tornando-as inviáveis.

No caso do armazenamento de milho em espiga em paióis de madeira, as perdas podem atingir 40% da produção com ataque de insetos e roedores (Pimentel et al., 2018).

Neste texto vamos conhecer as principais pragas do armazenamento de grãos, bem como os manejos mais eficientes de controle preventivo e curativo.

As pragas são classificadas conforme seu hábito alimentar:

Pragas primárias: atacam os grãos sadios.

Pragas primárias internas: perfuram e penetram nos grãos para seu desenvolvimento. Exemplo: besouros (R. dominica, S. oryzae e S. zeamais). Estes citados, são os principais insetos que ocorrem durante o armazenamento.

Pragas primárias externas: destroem a casca dos grãos e consomem o seu conteúdo. A diferença é que não vivem em seu interior, apenas se alimentam. Exemplo: traças (P. interpunctella);

Pragas secundárias:  não conseguem atacar os grãos inteiros, pois precisam que estejam danificados os quebradiços para se alimentarem. Causam grandes prejuízos. Sua presença indica que já foram atacados por pragas primárias. Exemplo: besouros (C. ferrugineus, O. surinamensis e T. castaneum) (Lorini, 2015).

O que essas pragas provocam?

  • Redução do peso do produto;
  • Diminuição do valor nutritivo;
  • Depreciação da qualidade e da estrutura dos grãos/sementes;
  • Potencial de reduzir vigor e germinação;
  • Valor comercial comprometido.

Quem são estes insetos que atacam durante o armazenamento?

  1. Gorgulho-dos-cereais (Rhyzopertha dominica)

É considerada a principal praga do trigo, podendo atacar arroz, cevada, triticale e aveia. Sobrevive mesmo com variações de temperaturas.

Como é uma praga primária interna, destrói o conteúdo interno dos grãos, resultando em aspecto farináceo. Apresenta alto potencial destrutivo, pois é capaz de consumir cerca de 5 a 6 vezes o seu peso em uma semana.

Figura 1. Rhyzopertha dominica. Ovo (a), larva (b), pupa (c) adulto (d).

Fotos: Lorini et al. (2015).

2. Gorgulho-do-arroz e gorgulho-do-milho (Sitophilus oryzae e S. zeamais)

São consideradas pragas primárias internas, podendo atacar trigo, milho, arroz e cevada. A sua presença pode ocorrer a campo ou durante o armazenamento (Lorini et al., 2015).

Figura 2. Sitophilus zeamais. Larva (a), adulto dorsal (b) adulto lateral (c), adulto ventral (d).

Fotos: Adriana de Marques Freitas.

3. Besouro-castanho (Tribolium castaneum)

São pragas secundárias com elevado potenciar de destruição, apresentando prejuízos superiores às pragas primárias. É comumente chamado de caruncho. As fêmeas ovipositam nas fendas das paredes, nas sacarias, sobre os grãos e nas frestas.

Figura 3. Tribolium castaneum. Larva (a e b), pupa (c) e adulto (d).

Fotos: Adriana de Marques Freitas.

4. Traça-dos-cereais (Ephestia kuehniella)

São pragas secundárias que atacam grãos de soja, milho e arroz, cacau, fumo, cevada, aveia, bem como produtos processados como biscoitos e chocolates.

As larvas vivem dentro dos grãos danificados por outras pragas, consumindo os resíduos. Quando adultos, dispersam-se por todo o local com pouca luz, multiplicando-se rapidamente (Lorini, 2011).

Figura 4. Ephestia kuehniella. Larva (a) e adulto (b).

Fotos: Adriana de Marques Freitas.

Em um trabalho realizado por Lorini et al. (2017), estudou-se as principais pragas encontradas nos grãos de soja armazenados. Percebe-se na Figura 5, que as maiores concentrações estão relacionadas a resíduos de insetos, acarretando depreciação do produto.

Como praga viva encontrada no armazenamento, a traça (Ephestia spp.) apresentou maior abundância entre os demais insetos, como visualizamos na Figura 5.

Figura 5. Número total de insetos-pragas identificados por espécie nas amostras de soja.

Fonte: Lorini et al. (2017).

Monitoramento

  • Deve-se acompanhar o armazenamento, de forma a realizar amostragens/coletas da massa de grãos a cada 15 dias;
  • Realizar medição da temperatura e da umidade dos grãos (condições ideais para o desenvolvimento das pragas são temperaturas de 25°C e a umidade relativa próximo a 70%);
  • Pode-se utilizar armadilhas fixas para coleta dos insetos, como armadilhas adesivas para detecção de traças.

Eficiência de métodos físicos

Fatores como umidade, temperatura, radiação, gás carbono e oxigênio, podem ser alterados de forma a reduzir ou eliminar a população de pragas.

Como visualizamos na Tabela 1, temperaturas na faixa de 25-32°C são consideradas temperaturas ótimas para desenvolvimento do gorgulho-dos-cereais. Temperaturas inferiores a 13°C ou superiores a 47,5 ºC por um tempo superior a 24 horas são eficientes para controlar Rhyzopertha dominica.

Tabela 1. Faixas de temperaturas para desenvolvimento do gorgulho-dos-cereais.

Adaptado: Lorini et al. (2015).

Caso não seja suficiente, pode-se entrar com estratégias químicas.

Eficiência de métodos químicos

  1. Tratamento preventivo

Aplica-se inseticidas (fosforados e piretroides) ou pó inerte (Terra de diatomáceas, proveniente de fósseis de algas diatomáceas, que possuem naturalmente uma fina camada de sílica) para tratamento de grãos quando o período de permanência for superior a 3 meses, podendo aplicar:

  • Sobre os grãos;
  • Na correia transportadora;
  • No momento de carregar o armazém;
  • No momento de ensaque das sementes.

Homogeneizá-los, de forma a proteger todo o grão (Lorini et al., 2013). Em uma pesquisa de Antunes & Dionello (2017), intitulada “Eficiência de Inseticidas Durante o Armazenamento de Grãos de Milho”, testou-se o controle com piretroide e organofosforado no manejo do gorgulho-do-milho.



Como observamos na Tabela 2, Pirimifós Metílico (organofosforado) apresenta maior controle da praga. A aplicação de 6 mL proporcionou 97% de mortalidade após 30 dias da aplicação. No entanto, a partir de 90 dias após realizado o tratamento, 8 mL de pirimifós apresentou o melhor controle.

A bifentrina apresenta controle inferior a 40%, apresentando certa resistência da praga ao grupo químico dos piretroides. O gorgulho-dos-cereais também apresentam resistência à deltametrina (Lorini et al., 2015).

Tabela 2. Número total de adultos de Sitophilus zeamais emergidos ao longo de 240 dias de armazenamento em grãos de milho tratados com Bifentrina e Pirimifós metílico com dosagem de 6 e 8 mL.

Fonte: Antunes & Dionello (2017).

2. Tratamento curativo: expurgo mediante uso de gás

Quando o ataque ocorre durante o período de armazenagem, pode-se realizar aplicações de fumigantes.  O produto comercial pode ser obtido na forma de sachês, pastilhas ou comprimidos.

Como realizar a fumigação (liberação do gás) com inseticidas?

Primeiramente, deve-se limpar os silos, pois os locais com acúmulo de poeira e com resíduos são cenários ideais para favorecer a presença das pragas. Não se esqueça do pátio de estacionamento, balanças, moegas, área de secagem, locais próximos do silo, pés de elevadores, esteiras e túneis (Da Silva et al., 2017).

É importante nivelar a superfície, pois a vedação completa é fundamental para evitar perdas do inseticida. Posteriormente, cubra com lonas próprias de expurgo e coloque pesos de areia.

Nas aberturas da lona, aplique diretamente na massa de grãos os produtos desejáveis com uso de pastilhas, bem como nos dutos de aeração. O inseticida mais utilizado para expurgo, com vantagens devido a sua eficiência, facilidade de uso e segurança de aplicação, é a fosfina.

É um gás altamente tóxico, eficaz no controle de todas as fases (ovo, larva, pupa e adultos) das pragas de grãos e sementes armazenadas. O período de liberação da fosfina pode durar aproximadamente 170 horas sem resultar em prejuízos fisiológicos nas sementes de soja, ou seja, nenhuma ação deletéria (Lorini et al., 2013). Confira com detalhes sobre a fumigação na Figura 6.

Figura 6. Passos para realizar fumigação.

Fonte: Bequisa.

Considerações finais

As injúrias causadas por pragas não cessam durante o período a campo. Os danos continuam na armazenagem dos grãos ou sementes. Os principais insetos encontrados são: gorgulho-dos-cereais, gorgulho-do-milho, gorgulho-do-arroz, caruncho e traça-dos-cereais.

A sua identificação correta é de fundamental importância para melhorarmos o manejo das pragas. Caso a armazenagem prevaleça por 90 dias, o tratamento dos grãos se torna necessário, podendo aplicar organofosforado nos grãos, na correia transportadora, no momento de carregar o armazém ou no ensacamento. O uso de piretroides pode estar comprometido devido registro de resistência pelas pragas,

Quando o ataque é detectado durante a armazenagem, devemos intervir com medidas curativas através do expurgo. O uso de fumigantes/fosfina (fosfeto de alumínio e de magnésio) é um dos métodos mais eficientes, apresentando facilidade de uso e segurança de aplicação.

É importante que o monitoramento seja realizado a cada 15 dias através de coletas da massa de grãos ou utilização de armadilhas. Os fatores climáticos dentro das estruturas são extremamente importantes, favorecendo as pragas temperaturas superiores a 25°C e umidade relativa próxima a 70%.


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Referências

ANTUNES, L. E. G.; DIONELLO, R. G. EFICIÊNCIA DE INSETICIDAS DURANTE O ARMAZENAMENTO DE GRÃOS DE MILHO. Revista Eletrônica Científica da UERGS, v. 3, n. 1, p. 83-94, 2017. Disponível em: < http://revista.uergs.edu.br/index.php/revuergs/article/view/508 >, acesso em: 08/12/2020.

BEQUISA. PASSO A PASSO FUMIGAÇÃO. Disponível em: < https://www.bequisa.com.br/arquivos/produtos/MHG914_7_8de655a49e0de3612cced2880aae9b2a.jpg >. Acesso em: 27.07.2020

DA SILVA, F. F. et al. PONTOS CRÍTICOS EM UNIDADES ARMAZENADORAS DE ARROZ PARA OCORRÊNCIA DE INSETOS. REVISTA ENGENHARIA NA AGRICULTURA-REVENG, v. 25, n. 3, p. 223-229, 2017. Disponível em: < https://periodicos.ufv.br/reveng/article/view/658 >, acesso em: 08/12/2020.

LORINI. CONHEÇA ESTAS PRAGAS E COMO COMBATÊ-LAS! Embrapa Soja, Folder 09/2011. 2011. Disponível em: < https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/916010/conheca-estas-pragas-e-como-combate-las >, acesso em: 08/12/2020.

LORINI, I. et al. EXPURGO DA SEMENTE DE SOJA COM FOSFINA E SEU EFEITO NA QUALIDADE FISIOLÓGICA – SÉRIE SEMENTES. Embrapa Soja, Circular técnica, n. 97, 2013. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/966714/2/CT97impressa.pdf >, acesso em: 08/12/2020.

LORINI, I. PERDAS ANUAIS EM GRÃOS ARMAZENADOS CHEGAM A 10% DA PRODUÇÃO NACIONAL. Visão agrícola nº13. 2015. Disponível em: < https://www.esalq.usp.br/visaoagricola/sites/default/files/VA_13_Colheita_armazenamento-artigo3.pdf >, acesso em: 08/12/2020.

LORINI, I. et al. MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS DE GRÃOS E SEMENTES ARMAZENADAS. Embrapa, Brasília, DF. 2015. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/129311/1/Livro-pragas.pdf >, acesso em: 08/12/2020.

LORINI, I. et al. INFESTAÇÃO DE INSETOS-PRAGA EM GRÃOS DE SOJA ARMAZENADOS, NA SAFRA 2015/16. Resumos expandidos da XXXVI Reunião de Pesquisa de Soja – junho de 2017 – Londrina/PR, 2017. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/161738/1/230.pdf >, acesso em: 08/12/2020.

PIMENTEL, MAG et al. Armazenamento de milho, infestação por insetos e níveis de micotoxinas em propriedades familiares no Estado de Minas Gerais. Embrapa Milho e Sorgo, Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, n. 179, 2018. Disponível em: < https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1104822/armazenamento-de-milho-infestacao-por-insetos-e-niveis-de-micotoxinas-em-propriedades-familiares-no-estado-de-minas-gerais- >, acesso em: 08/12/2020.

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Redação: Equipe Mais Soja.

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