A semente é um dos principais insumos da lavoura, a utilização de sementes de qualidade proporciona bom estabelecimento de plantas e uniformidade da lavoura, no entanto, quando se trata de produzir sementes, alguns cuidados devem ser tomados para garantir a qualidade do produto final. Primeiramente é preciso entender que a produção de sementes é diferente da produção de grãos, uma lavoura com finalidade de produzir sementes possui exigências distintas das lavouras destinadas a produção de grãos.

Quando se trabalha com produção de sementes, para alcançar os padrões de qualidade do sistema de certificação de sementes, vários parâmetros devem ser seguidos. Os padrões cobrem: purezas genética e física, qualidades fisiológica e sanitária KRZYZANOWSKI (2013). Vários fatores devem ser planejados atentamente visando aumentar a eficiência de produção e qualidade das sementes. Alguns cuidados como a escolha do material varietal e pureza genética, escolha da área de produção, planejamento das datas de semeadura, colheita e correto manejo fitossanitário são essenciais na qualidade final do produto e serão abordados a seguir.

Escolha do material varietal e pureza genética

O primeiro passo é a escolha do material a ser produzido, par isso deve-se conhecer as características e exigências da variedade ou cultivar, além de conhecer a origem do material e sua classificação. Segundo estabelecido pela Instrução Normativa nº 45, do MAPA, de 17 de setembro de 2013,  a escolha da categoria da semente depende da categoria a ser produzida, sendo que o material utilizado para produção deverá ser sempre uma categoria superior ao material que se deseja produzir, dessa forma, preservando a qualidade genética das sementes.

É importante certificar-se que o material utilizado apresenta pureza genética, não contendo misturas varietais. Também deve-se conhecer o histórico de produção das sementes e suas características fisiológica, físicas, sanitárias.

Escolha da área de produção

A escolha da área de produção é um dos fatores que demanda mais atenção e cuidado, é fundamental para garantir a qualidade genética e pureza varietal das sementes produzidas. Isso por que os campos de produção de sementes devem ser isolados no tempo ou espaço de outras produções vizinhas para minimizar riscos de contaminação por mistura varietal.

 Mas como isolar uma lavoura?

Quando possível, nas áreas próximas ao campo de produção de sementes, deve-se cultivar lavouras de outras espécies, por exemplo: em um capo de produção de sementes de soja, as lavouras ao redor podem ser cultivadas com milho, girassol etc. Já o isolamento no tempo consiste em organizar a semeadura ou escolha de cultivar de forma que o período reprodutivo (floração) das lavouras vizinhas não coincida com a floração da lavoura de sementes, diminuindo o risco de contaminação genética e mistura varietal.

Semeadura

Após escolhida a cultivar ou variedade a ser semeada, a semeadura deve atender as necessidades da cultura e região (zoneamento edafoclimático da cultura). Os equipamentos utilizados são semelhantes aos utilizados na produção de grãos, deve-se ter cuidado com a semeadora utilizada e processo de semeadura.

Veja também: O que é vigor de sementes?

A semeadora deve estar limpa, sem que haja resíduos de outras sementes para evitar contaminação genética e o processo de semeadura deve ser realizado com a densidade recomendado pala a cultivar ou variedade e nas velocidades de trabalho recomendadas a fim de garantir maior uniformidade possível de semeadura.

A semeadura deve levar em consideração a capacidade de colheita das sementes, de modo que quando atingida a maturidade fisiológica e características de colheita, a lavoura possa ser colhida no menor tempo possível sem grandes perdas de qualidade das sementes, segundo FRANÇA-NETO et. al, (2016) o processo de hidratação e desidratação das sementes, com base na variação da umidade pode causar danos à semente, aumentando a deterioração da mesma e prejudicando sua qualidade, logo, não é interessante que chova em uma lavoura de sementes pronta para colheita.

Caso a capacidade de colheita seja limitada, orienta-se a distribuição da semeadura no tempo, podendo ser feita divisões na área de produção (talhões), facilitando o manejo e colheita, diminuindo possíveis danos.

 Manejo da produção 

Estabelecida a cultura no campo, a atenção deve ser voltada para o manejo de pragas, doenças e plantas daninhas. O manejo de plantas daninhas é extremamente importante para garantir o nível de pureza das sementes. É interessante que até o fechamento das entrelinhas da cultura não haja presença de plantas daninhas, após o sombreamento das entrelinhas a germinação de plantas daninhas é dificultada facilitando o manejo, mas o controle deve persistir até a colheita das sementes. Em caso de não eficiência do controle químico (Figura 1), recomenda-se o arranquio das plantas daninhas (roguing).

Figura 1: planta daninhas resistente ao controle químico em lavoura de soja.

Manejo de pragas e doenças

O manejo de pragas e doenças durante o ciclo de desenvolvimento da cultura é essencial para garantir a qualidade sanitária das sementes. É importante que o material produzido não apresente contaminante, prejudicando o estabelecimento da lavoura. Em culturas como a soja, existem certas doenças e pragas que merecem atenção especial, os percevejos por exemplo, além de causar dano físico na semente pode ser transmissor de doenças virais entre plantas. O monitoramento da lavoura deve ser constante e o controle deve ser rigoroso.

Pré-colheita e colheita

Testes de qualidade devem ser empregados para avaliar as sementes a serem colhidas, um dos testes a ser realizado na pré-colheita é a avaliação da umidade da massa de grão, em especial por que grãos colhidos muito úmidos podem sofrer deformação e “fricção” interna, lesionando o embrião da sementes e prejudicando sua germinação. Já para sementes colhidas muito secas, danos por quebra podem ocorrer e mesmo que não atinja o embrião, a quebra de uma semente pode se tornar porta de entrada para patógenos, prejudicando sua sanidade.

O processo de colheita deve ser acompanhado e monitorado por uma equipe técnica responsável, as máquinas devem ser corretamente reguladas para evitar quebra e o transbordo deve ser realizado com o uso de graneleiros apropriados, sem o uso de roscas sem fim como sistema de descarga. Recomenda-se a colheita com umidade de sementes entre 13 e 15%, porém sementes colhidas a 15% de umidade estão sujeitas a maiores danos internos.

A colhedora, graneleiros e caminhões utilizados para transporte das sementes devem ser limpo antes de iniciar a colheita para evitar resíduos de sementes e grãos que possam causar mistura varietal, é importante ter atenção durante o processo de colheita.


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Teste de qualidade de sementes

Vários testes podem ser usados para orientar na determinação da qualidade de sementes, como por exemplo a determinação da umidade das sementes, testes de germinação e vigor, teste de envelhecimento acelerado, tetrazólio entre outros.

 A qualidade sanitária é assegurada por meio dos testes de patologia de sementes, como o método do papel de filtro, que junto com os resultados obtidos pelo teste de tetrazólio oferecem o Diagnóstico Completo da Qualidade da Semente (DIACOM), o que permite orientar o tratamento da semente com fungicidas KRZYZANOWSKI (2013).

Contudo, em especial para a cultura da soja, o teste de tetrazólio é um dos mais utilizados para avaliar características fisiológicas, sendo possível através dele avaliar danos como picadas de percevejo (figura 2) e deterioração por umidade, sendo fundamental para monitoramento da qualidade das sementes e tempo de armazenagem.

Figura 2. Dano causado por percevejo na região inferior do cotilédone.

Foto: José de Barros França Neto

Beneficiamento, armazenagem e comercialização

As sementes colhidas passam por um processo de secagem, pré-limpeza, classificação, armazenamento e comercialização. A pré-secagem visa uniformizar a umidade da massa de grãos diminuindo a deterioração; a pré-limpeza tem como finalidade retirar materiais inertes das sementes, contaminantes, outras sementes e sem também algumas sementes verdes.

Após isso, os lotes de sementes são amostrados e armazenados, as embalagens vão depender da finalidade da venda, mas podem ser em sacos de papel, big-bags entre outras.  Para comercialização deve as embalagens devem conter entre outras informações, a porcentagem de germinação das sementes, o lote, a identificação da cultivar entre outras.

Amostras de cada lote são retiradas da massa de sementes antes de embaladas para a realização dos testes de qualidade, assegurando a qualidade das sementes. Esses testes devem ser repetidos com o passar do tempo, enquanto estiverem armazenadas, para monitoramento da qualidade do lote.

 Referências:

FRANÇA-NETO et. al, TECNOLOGIA DA PRODUÇÃO DE SEMENTES DE SOJA DE ALTA QUALIDADE. EMBRAPA, Londrina, PR, Documentos, n.380, nov., 2016.

FRANÇA-NETO, et. al,. O TESTE DE TETRAZÓLIO EM SEMENTES DE SOJA, EMBRAPA-CNPSo. Documentos, 116, 1998.

GEHLEN, et. al,. CONTROLE DE QUALIDADE DE SEMENTES DE SOJA NA COOPERATIVA AGRÍCOLA MISTA SÃO CRISTÓVÃO LTDA, Pelotas, RS, 2015.

KRZYZANOWSKI, F.C. CONTROLE DE QUALIDADE E A PRODUÇÃO DE SEMENTES DE ALTA QUALIDADE. Embrapa Soja, Londrina, PR, 2013.

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. NORMAS PARA PRODUÇÃO, COMERCIALIZAÇÃO E UTILIZAÇÃO DE SEMENTES, instrução normativa nº 9, de 2 de junho de 2005.

PESKE, et. al,. SEMENTES; FUNDAMENTOS CIENTÍFICOS E TECNOLÓGICOS. Pelotas, RS, 2003.

Redação: Maurício Siqueira dos Santos – Eng. Agrônomo.

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