O Brasil é um dos países que produz mais alimentos com menos aplicação de defensivos agrícolas no mundo. Um estudo realizado recentemente pela Unesp – Campus de Botucatu comparou o emprego de defensivos com a área plantada e também com a quantidade de produtos agrícolas produzida em diversos países. Entre os 20 países estudados, o Brasil é apenas o 13º que mais emprega defensivos agrícolas por quantidade de produto agrícola produzido. Neste sentido, países europeus (como Itália, França, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Polônia), Japão, Coréia, Austrália, Canadá, Argentina e Estados Unidos empregam mais defensivos agrícolas que o Brasil para produzir a mesma quantidade de alimentos.

Figura 1. Emprego de defensivos agrícolas por produção (US$/tonelada de produtos agrícolas) em diferentes países.

Fonte: SINDIVEG. Acesse a imagem original clicando aqui

Um fator que deve ser considerado é que o clima tropical brasileiro favorece a proliferação de pragas e, consequentemente, gera a necessidade de mais aplicações de defensivos agrícolas. Ainda assim, a comparação do emprego de defensivos com a área plantada (hectares) atesta a eficiência do Brasil na produção de alimentos com menos aplicações de pesticidas. Nesse ranking, o Brasil aparece em 7º lugar. Na nossa frente, Japão, Coréia e países europeus (Alemanha, França, Itália e Inglaterra) empregam mais defensivos agrícolas por área cultivada.

Figura 2. Emprego de defensivos agrícolas por área (US$/ha) em diferentes países.

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Dessa forma, o Brasil – um dos maiores produtores agrícolas mundiais – consegue fazer um uso racional de defensivos agrícolas e produzir mais que países de primeiro mundo com menor uso de defensivos, mesmo em condições climáticas que favorecem a incidência de pragas e tendo múltiplas safras ao longo do ano, o que não acontece nos países de clima temperado.

Há algum tempo, manchetes sensacionalistas têm propagado um dado polêmico: cada brasileiro consumiria, em média, cinco litros de agrotóxicos por ano, devido ao uso exagerado desses produtos pelos agricultores e aos resíduos remanescentes nos alimentos. Na verdade, trata-se de uma informação distorcida, obtida por uma simples divisão do volume de defensivos comercializado no país pela produção agrícola anual. Quando abordamos o assunto de forma racional e científica, percebemos que a realidade é bem diferente.

Em primeiro lugar, os defensivos agrícolas não são consumidos diretamente pelas pessoas. Eles são empregados nas lavouras para controlar as pragas que atacam
as culturas, evitando assim perdas de alimentos e matérias-primas. A maior parte dos defensivos comercializados no Brasil (81%) é utilizada em quatro culturas
– soja, milho, cana-de-açúcar e algodão –, cujos produtos finais não são destinados à alimentação humana direta: são culturas utilizadas majoritariamente como matéria-prima para produtos industrializados, como a produção de energia (álcool), roupas (algodão) ou ainda alimentação de animais (soja e milho).

Figura 3. Defensivos agrícolas empregados por cultura no Brasil em 2017 (US$).

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Além disso, a maior parte (60%) dos defensivos empregados no Brasil é composta por herbicidas, ou seja, produtos destinados ao controle de plantas daninhas que competem com os cultivos agrícolas por água, luz e nutrientes do solo, prejudicando seu pleno desenvolvimento. Os herbicidas nem sempre são usados diretamente nas culturas e sim antes de seus plantios. Portanto, quando usados desta maneira, não deixam quaisquer resíduos nas plantas ou nos alimentos.

Figura 4. Classes de defensivos agrícolas empregados no Brasil em 2017 (toneladas).

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Todos esses dados consideram os defensivos agrícolas formulados, ou seja, os produtos que saem das fábricas e chegam aos agricultores. Mas esses produtos não são aplicados diretamente nas lavouras: primeiramente eles são diluídos em água, para só então serem aplicados sobre as culturas agrícolas. Em um tanque de pulverização de 400 litros, por exemplo, pode ser necessário adicionar não mais do que 300 ml de um determinado inseticida formulado; sendo que apenas uma porcentagem desse produto comercial corresponde ao ingrediente ativo, enquanto o restante são substâncias inertes necessárias à formulação. Produtos com alta especificidade e eficácia de controle geralmente são utilizados em baixas doses na calda de pulverização. Além disso, parte dos defensivos é aplicada no caule e nas folhas, e não necessariamente na parte comestível da planta.

Após a aplicação, o produto agrícola só pode ser colhido quando transcorrer o chamado intervalo de segurança entre a última aplicação e a colheita, o qual varia de produto para produto e é obrigatoriamente informado na bula. Durante o intervalo de segurança, os resíduos de defensivos, assim como qualquer outra substância química, degradam com o tempo. Vários dias se passam desde a colheita no campo até o alimento chegar à mesa das pessoas para ser consumido, e durante esse período os resíduos de defensivos que eventualmente permaneçam degradam ainda mais.

Por fim, grande parte dos defensivos fica retido nas cascas dos alimentos, que são retiradas antes do consumo. O preparo de alguns alimentos (cozimento ou fervura, por exemplo) também pode reduzir a quantidade de resíduos, assim como a industrialização de alimentos processados. Em todos esses casos, órgãos fiscalizadores podem atuar no sentido de verificar níveis tolerados de resíduos e impedir a comercialização de produtos que ultrapassem esses níveis.

Vale ressaltar ainda que muitos países, como o Brasil, exportam a maior parte da sua produção agrícola, o que significa que nem tudo que é produzido será consumido no próprio país. Mesmo que os alimentos apresentassem resíduos de defensivos acima do normal, essa produção não seria totalmente destinada ao mercado interno; e a comunidade internacional possui protocolos extremamente rigorosos de fiscalização, de modo que países de primeiro mundo jamais importariam nossos alimentos se eles não estivessem de acordo com normas de segurança alimentar.

Portanto, está errado dizer que o brasileiro consome cinco litros de agrotóxico ao ano, pois:

  1. As pessoas não consomem defensivos agrícolas: eles são usados nas lavouras.
  2. Mais de 80% dos defensivos são usados nas culturas agrícolas que dão origem a produtos industrializados, energia (álcool), roupas (algodão) e alimentação animal (soja e milho).
  3. Dentre estes defensivos, a maior parte (60%) são herbicidas, cujo alvo são as plantas daninhas, e não as plantas que servem de alimento.
  4. Os defensivos são diluídos em água para uso na agricultura, ao invés de serem
    usados na forma que saem das fábricas.
  5. Os defensivos geralmente são aplicados no caule, nas folhas e nas sementes com casca, dificilmente atingindo diretamente a parte comestível das plantas.
  6. Há um intervalo de segurança entre a última aplicação de defensivo e a colheita, com um período adicional de tempo até o alimento chegar à mesa do consumidor. Nesse intervalo, os resíduos de defensivos se degradam completamente.
  7. Grande parte da produção agrícola brasileira é destinada à exportação, tornando ainda mais errônea a simples comparação entre o volume de defensivos comercializados no mercado interno e a produção agrícola total do país.

Considerações finais

Os defensivos agrícolas são ferramentas indispensáveis para a agricultura moderna, desenvolvidas a um alto custo pela indústria química e rigorosamente fiscalizadas pelos órgãos de registro, garantindo que sua utilização seja ambientalmente segura e tecnicamente eficaz. Quando as recomendações técnicas de uso não são seguidas à risca, geralmente o maior prejudicado não é o consumidor final, mas sim o próprio aplicador: mesmo assim, as formulações de defensivos avançam cada vez mais no sentido de reduzir os riscos de contaminação acidental. Os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) existem para reduzir a exposição do trabalhador aos produtos químicos e, assim, aumentar a segurança durante o manuseio.

Considerando que a população mundial é cada vez maior e mais urbana, e que a abertura de novas áreas para cultivo é ambientalmente impraticável, o decrescente contingente de trabalhadores rurais precisa produzir mais em uma mesma área de cultivo, garantindo a oferta de alimentos a preços acessíveis e, ainda, abatendo os custos crescentes da sua produção. E a ferramenta que torna isso tudo possível é o uso de defensivos agrícolas.

Esse texto foi produzido com base em um informe técnico do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), a principal entidade representativa do setor de defensivos agrícolas no Brasil há mais de 75 anos. O material completo encontra-se disponível, Clicando aqui.

Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

REFERÊNCIAS:

CEPEA/ESALQ. 2016. O impacto econômico das pragas agrícolas no Brasil. Disponível em: htps://www.slideshare.net/Agropec2/impactoeconmico-de-pragas-agrcolas-no-brasil

Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (SINDIVEG).
2018
. O que você precisa saber sobre defensivos agrícolas. Disponível em: http://sindiveg.org.br/wpcontent/uploads/2018/08/oquevoceprecisasabersobredefensivosagricolas.pdf

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