Euphorbia heterophylla L., conhecida no Brasil como leiteiro, amendoim-bravo, leiteira, café-do-diabo, diabo do leiteiro, entre outros nomes populares, é uma planta daninha anual, com reprodução por sementes e amplamente disseminada nas principais regiões agrícolas do País, especialmente nos sistemas de produção de grãos, que inclui a cultura da soja.

No passado, notadamente antes da introdução da soja geneticamente modificada para resistência ao herbicida glifosato, essa planta daninha era considerada pelos sojicultores uma das principais infestantes, se não a principal infestante da cultura da soja. Isso ocorria por algumas especificidades da espécie, como a longa viabilidade das sementes, o alto potencial de germinação em maiores profundidades de solo, o rápido crescimento vegetativo, entre outras características que propiciavam um grande poder de competição com as culturas exploradas.

Além desses fatores intrínsecos a essa espécie, a partir da década de 1990, populações resistentes a herbicidas inibidores da acetolactato sintase (ALS) foram selecionadas. Este grupo de herbicidas vinha sendo o principal mecanismo de ação utilizado na época, o que tornou o controle dessa planta daninha ainda mais difícil e complicado para os sojicultores brasileiros (Gazziero et al., 1998).

Com o início do cultivo da soja resistente ao glifosato no País, oficialmente a partir da safra 2005/2006, o manejo das populações de Euphorbia heterophylla foi muito facilitado, sendo o controle dessa infestante realizado basicamente com duas a três aplicações de glifosato na pós-emergência da cultura, com doses totais que chegavam até a 2.880 g e.a./ha.

Esse sistema de manejo, com a utilização quase que exclusiva do glifosato para o controle químico das infestantes na cultura da soja, resultou em forte pressão de seleção de biótipos resistentes. Atualmente, existem nove espécies resistentes ao glifosato no Brasil: Amaranthus palmeri, Amaranthus hibrydus, Chloris elata, Conyza bonariensis, Conyza canadensis, Conyza sumatrensis, Digitaria insularis, Eleusine indica e Lolium multiflorum (Heap, 2020).

O novo caso de resistência

Na safra 2018/2019, foi constatada pela equipe técnica da COCARICooperativa Agropecuária e Industrial, em uma propriedade cultivada com soja na região do Vale do Ivaí, PR, a sobrevivência de uma população de Euphorbia heterophylla após aplicações de glifosato, nas doses recomendadas de acordo com a bula (Figura 1).

Figura 1. Área infestada com Euphorbia heterophylla resistente ao glifosato, na região
do Vale do Ivaí, PR. Foto: Fernando Storniolo Adegas

Segundo o agricultor, esse problema já havia ocorrido nas duas safras anteriores, mas em proporção menor. Através da parceria de trabalho existente com a COCARI, a equipe de plantas daninhas da Embrapa Soja foi comunicada sobre o caso, sendo iniciado a partir de então um trabalho para avaliação da situação. Primeiramente foi realizada nova aplicação de glifosato na área afetada, com a dose e a tecnologia de aplicação recomendadas, sendo que as plantas de Euphorbia heterophylla novamente não foram controladas pelo glifosato.

A segunda etapa do trabalho foi a coleta de sementes dos biótipos sobreviventes no campo, as quais foram levadas para a Embrapa Soja, em Londrina, PR. Primeiramente foi confirmada a identificação da espécie como sendo Euphorbia heterophylla e realizado o primeiro experimento em casa de vegetação, com estudos de dose resposta ao herbicida glifosato. Posteriormente, um segundo experimento foi realizado com as sementes das plantas sobreviventes desse experimento inicial (geração F2) e, na sequência, um terceiro estudo com as sementes coletadas do segundo experimento (geração F3), sempre comparando a população suspeita com uma população suscetível ao glifosato (Figura 2).

Figura 2. Populações de Euphorbia heterophylla suscetível (A) e resistente (B) ao glifosato
(doses em kg e.a./ha). Foto: Fernando Storniolo Adegas

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualisado, com seis repetições, em onze doses de glifosato (em e.a./ha): 0, 130, 270, 570, 720, 1080 (padrão), 1440, 2160, 4320, 8640, 17280, aplicado no estádio de quatro folhas verdadeiras. As avaliações realizadas foram as de controle visual a cada sete dias após a aplicação e de matéria seca coletada aos 28 dias após a aplicação. A análise estatística foi feita com o programa R, sendo utilizado um modelo de regressão linear log-logístico apropriado ao tipo de experimento.

Os resultados confirmaram a suspeita de que a sobrevivência das plantas se devia a seleção de uma população resistente ao herbicida. O fator de resistência obtido no segundo experimento foi de 4,74 para a dose de controle de 50% da população suspeita, em relação a suscetível (DL50), e de 3,30 para a redução da biomassa da população suspeita em relação a suscetível (GR50). Trata-se, portanto, de um novo caso de resistência de uma espécie daninha ao herbicida glifosato no Brasil.



Considerações finais 

É importante destacar que no presente trabalho foi seguido todo o protocolo para relato de casos de resistência de plantas daninhas a herbicidas, proposto pelo Comitê de Resistência da Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas e, posteriormente, esse caso foi também comunicado ao HRAC-Brasil.

Além do trabalho de constatação da resistência, foram realizados estudos de manejo da espécie, tanto em casa de vegetação quanto no campo, na área com suspeita de resistência. Nesses trabalhos foram observados a hipótese da existência de resistência múltipla aos inibidores da acetolactato sintase (ALS), que está sendo verificado através de experimentos complementares.

Concomitantemente foi discutido com a gerência técnica da COCARI, responsável pela assistência técnica da área e parceira nos trabalhos, ações de monitoramento, manejo, mitigação e contenção desse novo caso de resistência, o qual ainda está restrito a essa única área.

Outros estudos vêm sendo realizados em parceria com a Universidade Estadual de Maringá e a Colorado State University, com o objetivo de estudar o mecanismo de resistência dessa população. Resultados preliminares já indicam qual seria o mecanismo, reforçando tecnicamente o relato desse caso.

Referências 

GAZZIERO, D. L. P.; BRIGHENTI, A. M., MACIEL, C. D. G.; CHRISTOFFOLETI, P. J.; ADEGAS, F.S.; VOLL, E. Resistência de amendoim-bravo aos herbicidas inibidores da enzima ALS. Planta Daninha, v. 16, n. 2, p. 117-125, 1998.

HEAP, I. International survey of herbicide resistance weeds. c2020. Disponível em:<http://www.weedscience.com/Filter/Filter.aspx>. Acesso em: 11 fev. 2020.

Autores:  

  • Fernando Storniolo Adegas, Engenheiro-agrônomo, doutor em Agronomia, pesquisador da Embrapa Soja, Londrina, PR
  • Dionísio Luiz Pisa Gazziero, Engenheiro-agrônomo, doutor em Agronomia, pesquisador da Embrapa Soja, Londrina, PR
  • Rubem Silvério de Oliveira Júnior, Engenheiro-agrônomo, doutor em Fitotecnica, professor da Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR
  • Rafael Romero Mendes, Engenheiro-agrônomo, mestre em Agronomia, doutorando da Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR
  • Luciano Junior Rodrigues, Engenheiro-agrônomo, COCARI – Cooperativa Agrícola e Agroindustrial, Mandaguari, PR

Fonte: Comunicado Técnico Embrapa – nº 98

Foto de capa: Fernando Storniolo Adegas

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