Autores: Prof. Dr. Argemiro Luís Brum e Jaciele Moreira.

As cotações da soja em Chicago, após subirem para US$ 10,43/bushel no dia 18/09, estabelecendo o nível mais elevado desde o início de maio de 2018, considerando o primeiro mês cotado, acabaram recuando fortemente nesta semana. O primeiro mês fechou a quinta-feira (24) em US$ 10,00/bushel, contra US$ 10,28 uma semana antes.

Os mais otimistas no mercado internacional aguardavam que o mercado rompesse o teto dos US$ 10,50 e avançasse para US$ 10,70, porém, não foi isso que aconteceu, como aliás já era esperado.

A pressão da colheita dos EUA, de uma safra importante mesmo com a redução da produção inicialmente esperada, e o início do plantio de uma safra que se espera recorde no Brasil, acompanhado da Argentina logo em seguida, fizeram os Fundos especulativos venderem posições para auferir lucros e se reposicionarem na Bolsa.

Na verdade, estes Fundos investidores, que se movimentam especulativamente nas diferentes bolsas mundo afora, em Chicago, possuíam uma posição recorde de contrados comprados, a qual superava 250 mil contratos. Era a maior posição comprada desde 2012. Em soja, milho e trigo, a posição comprada destes fundos somava US$ 28,7 bilhões, sendo a maior em 27 meses. (cf. StoneX Group, Inc)

Em um determinado momento, as vendas deveriam começar e, parece, o processo se iniciou nesta semana.

Assim, mesmo com a continuidade da forte demanda chinesa, as cotações não resistiram, embora ainda se mantenham em níveis elevados a julgar pela tendência baixista que o mercado apresenta na medida em que a colheita estadunidense avança.

Para analistas privados, a China ainda precisaria comprar 8 milhões de toneladas de soja dos EUA até janeiro, situação que será contemplada com a atual colheita, a qual deverá superar as 117 milhões de toneladas no país norte-americano.

Por enquanto, as informações de que a primavera brasileira e argentina será atingida pelo fenômeno La Niña (menos chuva) ainda não estão sendo consideradas no mercado, embora o Centro-Oeste enfrente dificuldades para o novo plantio da oleaginosa devido a falta de chuvas neste momento.

Por sua vez, os EUA, até o dia 20/09, havia colhido 6% de sua área de soja, ficando dentro da média histórica. O que vem surpreendendo é que a produtividade média estaria melhor do que o esperado nas últimas previsões. Neste sentido, o índice das lavouras entre boas a excelentes foi mantido em 63%, contra 54% no ano passado nesta época.

Temperando esta realidade de oferta, o USDA anunciou no dia 24/09 que as exportações estadunidenses de soja estão muito firmes, tendo atingido 3,2 milhões de toneladas na semana encerrada em 17/09, sendo que a China comprou mais de 1,8 milhão daquele total. Com isso, o total de soja já vendida nos EUA, desta nova safra, atinge a 35,5 milhões de toneladas, contra pouco mais de 12 milhões na mesma época do ano anterior. O governo estadunidense espera exportar cerca de 57,8 milhões de toneladas de soja neste ano 2020/21.



Por outro lado, importante salientar que o farelo de soja viu sua cotação ganhar pouco mais de 18% nos últimos 30 dias, batendo em US$ 342,10/tonelada curta neste dia 23/09, algo que não era visto desde meados de junho de 2018. Esse movimento se deve ao forte recuo no esmagamento de soja na Argentina (20,6% na comparação anual em agosto), país que exporta quase metade do farelo de soja no mundo. Nos primeiros oito meses do ano, as indústrias argentinas processaram um total de 25,9 milhões de toneladas, ou 9% abaixo do mesmo período do ano passado, conforme o governo local. Lembrando que a Argentina igualmente foi atingida pela seca nesta última colheita, obtendo 49 milhões de toneladas de soja, contra a expectativa inicial de 55,3 milhões. O plantio da nova safra argentina de soja inicia em outubro próximo.

Aqui no Brasil, apesar do recuo em Chicago, o câmbio voltou a disparar, com o Real se aproximando dos R$ 5,60 em alguns momentos da semana. Além disso, os prêmios nos principais portos brasileiros ultrapassaram os US$ 2,00/bushel.

Com isso, os preços da soja voltaram a subir em termos médios. O balcão gaúcho fechou a semana em R$ 134,72/saco, enquanto no Paraná o preço ficou entre R$ 129,00 e R$ 130,00. Já em Campo Novo do Parecis (MT) o valor foi a R$ 132,00, enquanto o CIF Maracaju (MS) bateu em R$ 149,00. Ao mesmo tempo, em Rio Verde (GO) o saco de soja ficou cotado em R$ 133,00, enquanto em Luís Eduardo Magalhães (BA) o mesmo atingiu a R$ 132,00.

Houve chuvas nas regiões do Centro-Oeste, porém, ainda insuficientes para as necessidades ideais do plantio da oleaginosa. Espera-se chuvas melhores no final de setembro. Os produtores, diante da forte elevação do custo de produção para esta nova safra, não estão arriscando semear fora das condições ideais de clima. Por enquanto, o problema ainda não é sério, porém, gera inquietudes.

Por outro lado, segundo a Secex o Brasil já teria vendido 83,2 milhões de toneladas de soja, contra 60 milhões no mesmo período do ano passado. Mais 100.000 toneladas e será batido o recorde histórico de exportação anual. Esta realidade igualmente tem puxado os preços internos para cima. Dito de outra forma, o país já embarcou 78% da safra colhida recentemente, contra 63% no ano anterior. Em todo o complexo soja, os embarques já somam 97,6 milhões de toneladas, também próximos ao recorde de 2018, que foi de 101,2 milhões de toneladas.

No atual contexto de preços, as vendas antecipadas de soja, relativas a safra 2020/21, continuam avançando. No Mato Grosso as mesmas já chegam a 60% do total esperado na colheita futura. Somente a China já comprou 13,5 milhões de toneladas da futura safra mato-grossense.

Dito isso, é importante salientar que a estratégia de venda antecipada, por parte dos produtores, está correta, pois os atuais preços da soja no Brasil estão fora da curva e não devem se manter para o momento da colheita, salvo uma frustração generalizada na produção futura ou uma disparada cambial ainda maior do que o já ocorrido, fato que não está no horizonte da economia nacional.


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Fonte: Informativo CEEMA UNJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum (1) e de Jaciele Moreira (2).

1 – Professor do DACEC/UNIJUI, doutor em economia internacional pela EHESS de Paris França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA.
2-  Analista do Laboratório de Economia da UNIJUI, bacharel em economia pela UNIJUÍ, Tecnóloga em Processos Gerenciais – UNIJUÍ e aluna do MBA – Finanças e Mercados de Capitais – UNIJUÍ e ADM – Administração UNIJUÍ

Texto originalmente publicado em:
CEEMA
Autor: CEEMA Unijui

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