As doenças de solo na cultura da soja têm se tornado um grande problema para o produtor rural, isso acontece em razão da monocultura, que acarreta em um desequilíbrio da microbiota do solo. O patógeno Macrophomina phaseolina, agente etiológico causador da podridão cinzenta da raiz merece destaque, devido ao seu difícil controle e potencial de causar perdas. O fungo é polífago, sendo capaz de infectar mais de 500 espécies vegetais, como o milho, algodão e feijão, que são culturas importantes no sistema de rotação/sucessão de culturas com a soja, tornando até certo ponto, a rotação de culturas ineficaz (GUPTA et al., 2012).

A M. phaseolina é um fungo necrotrófico monocíclico, que pode se manter viável no solo mesmo na falta de um hospedeiro vivo, através da atividade saprofítica ou por meio de estruturas de resistência do fungo, conhecidas como microesclerócios, que podem sobreviver no solo durante até 15 anos (MEYER et al., 1974).           Em relação aos fatores ambientais que favorecem a viabilidade dos microesclerócios do patógeno, temperaturas elevadas tanto do ar (tabela 1) quanto do solo e ocorrência de déficit hídrico são fatores preponderantes e que de maneira geral também levam a maior severidade da doença no campo (VIANA & SOUZA, 2002; DHINGRA & SINCLAIR, 1975).

Tabela 1. Efeito da interação de duas tensões de água com cinco temperaturas sobre a germinação de microescleródios de Macrophomina phaseolina em areia. Médias da mesma linha seguidas da mesma letra não diferem, estatisticamente, entre si pelo teste de Duncan a 5% de probabilidade.

¹Areia seca ao ar.  Adaptado de: (VIANA & SOUZA, 2002).

Logo nos primeiros estágios de desenvolvimento da soja, a exsudação radicular serve como sinal para o início da germinação dos microesclerócios, ocorrendo a infecção da raiz e o desenvolvimento das estruturas do patógeno no xilema, formando uma barreira que dificulta a absorção de água e nutrientes, onde as raízes infectadas são facilmente destacadas, sendo visível uma coloração escura das raízes (figura 1), principalmente pela presença dos sinais do patógeno, como micélios, picnídeos e microesclerócios (figura 2) (MICHEREFF et al., 2005). Os sintomas da doença na parte aérea das plantas são principalmente o amarelecimento seguido de murcha, onde as folhas secam e permanecem aderidas (figura 3), geralmente distribuídas em reboleiras na lavoura (MADALOSSO et al., 2015; ALMEIDA et al., 2014).

Figura 1. Raiz de soja infectada por Macrophomina phaseolina, com a presença de micélios e microesclerócios do patógeno. Autor: Marcelo Gripa Madalosso.

Figura 2. Microesclerócios de M. phaseolina em raiz de soja com auxílio de lupa de 40x de aumento. Autor: Luiz Eduardo Braga.

Figura 3. Planta de soja com sintomas de murcha causado pela infecção de Macrophomina phaseolina. Autor: Marcelo Gripa Madalosso

A safra 2020/2021 mostrou-se desafiadora nas principais regiões produtoras de soja no Brasil, principalmente pela falta de chuvas no período da semeadura da soja no Centro-Oeste e no Sul, onde posteriormente de maneira geral as chuvas alcançaram a normalidade, com períodos de veranicos pontuais em determinados locais.

A variação da disponibilidade hídrica no solo no decorrer do desenvolvimento da soja pode ser considerado um fator determinante na maior ocorrência de M. phaseolina no Rio Grande do Sul na safra 2020/2021, onde durante a fase vegetativa da cultura ocorreram bons acumulados pluviométricos, o que desestimula o crescimento radicular em profundidade no perfil do solo, e durante a fase reprodutiva, a falta de chuvas durante 10-14 dias evidenciaram a doença no campo.

O menor desenvolvimento radicular também pode ser explicado pela simplificação dos sistemas de cultivo de soja, como por exemplo soja-pousio, soja-milho ou soja-trigo em safras sucessivas, tornando o ambiente edáfico menos favorável ao desenvolvimento radicular, seja pela ocorrência de compactação do solo, deficiências nutricionais, presença de alumínio tóxico, menor diversidade da biota antagonista de fungos de solo, baixos teores de matéria orgânica, etc, o que faz com que as camadas subsuperciais do perfil do solo sejam menos exploradas, ficando a maior densidade radicular confinada até os 15 centímetros de profundidade.

A camada de solo até 7,5 cm de profundidade é aquela em que a M. phaseolina predomina, possuindo maior densidade e viabilidade de microesclerócios, devido principalmente a maior disponibilidade de oxigênio e matéria orgânica, ao ponto que camadas mais profundas são menos favoráveis ao patógeno, principalmente em solos argilosos (GANGOPADHYAY et al., 1982; DHINGRA & SINCLAIR, 1975; WRATHER et al., 1998).

O manejo de M. phaseolina em soja deve ser pensado visando a melhoria das condições de solo para o desenvolvimento da cultura, já que o controle químico e o uso de cultivares resistentes apresentam pouco ou nenhum resultado positivo. O adequado é trabalhar na melhoria física do solo, principalmente no diagnóstico de áreas compactadas e a subsequente descompactação. O próximo passo é a melhoria química do solo, o que engloba a neutralização do alumínio tóxico junto da correção do pH para o mais próximo possível da neutralidade (pH = 7,0), assim como, a correção de macro e micronutrientes, tornando estes disponíveis nos teores adequados.

Além da física e química, deve-se trabalhar a melhoria da biologia do solo, com o uso de agentes de biocontrole, a exemplos de Trichoderma spp. e Bacillus spp. e com a implementação integral do sistema de plantio direto (SPD), que pressupõe o não revolvimento do solo, a adição de palhada no sistema, a rotação de culturas, entre outros fatores. Os métodos de manejo citados visam tornar o solo supressivo ao patógeno, desfavorecendo o seu desenvolvimento, e também visam melhorar as condições para o desenvolvimento da planta, aumentando a área explorável pelo sistema radicular no perfil do solo, servindo de escape da doença.



Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, A. M. R.; SEIXAS, C. D. S.; FARIAS, J. R. B.; OLIVEIRA, M. C. N. de; FRANCHINI, J. C.; DEBIASI, H.; COSTA, J. M. da; GAUDÊNCIO, C. de A. Macrophomina phaseolina em soja. Embrapa Soja. Londrina. Documentos 346, 2014. 55 p.

DHINGRA, O. D.; SINCLAIR, J. B. Survival of Macrophomina phaseolina sclerotia in soil: effects of soil moisture, carbon:nitrogen ratios, carbon sources, and nitrogen concentrations. Phytopathology, v. 65, p. 236-240, 1975.

GANGOPADHYAY, S.; WYLLIE, T.D.; TEAGUE, W.R. Effect of bulk density and moisture content of soil on the survival of Macrophomina phaseolina. Plant and Soil, v. 68, p. 241-247, 1982.

GUPTA, G. K.; SHARMA, S. K.; RAMTEKE, R. Biology, Epidemiology and Management of the Pathogenic Fungus Macrophomina phaseolina (Tassi) Goid with Special Reference to Charcoal Rot of Soybean (Glycine max (L.) Merrill). J. Phytopathol 160. p.167–180, 2012.

MADALOSSO, M. G.; TORMEN, N. R.; MARQUES, L. N.; GULART, C. A.; BALARDIN, R. S. Doenças da Soja: Fungos e Cromistas. Santa Maria: [s.n.], 2015.

MEYER, W. A.; SINCLAIR, J. B.; KHARE, M. N. Factors affecting Charcoal rot of soybean seedlings. Phytopathology, v. 64, p. 845-849, 1974.

MICHEREFF, Sami J.; ANDRADE, Domingos E. G. T.; MENEZES, Maria (Eds.) Ecologia e manejo de patógenos radiculares em solos tropicais. Recife: UFRPE. 2005. 398 p.

VIANA, F.M.P.; SOUZA, N.L. Efeito da temperatura e da tensão de água do substrato na germinação de microesclerócios de Macrophomina phaseolina. Summa Phytopathologica, v. 23, p. 236-239, 2002.

WRATHER.J.A.; KENDIG.S.R.; TYLER. D.D. Tillage effects on Macrophomina phaseolina population density and soybean yield. Plant Disease, v. 82, n. 2, p.247-250, 1998.


AUTORES: Luiz Eduardo Braga¹, Eduardo Argenta Steinhaus¹, Thiego Filipe Renz², e Marcelo Gripa Madalosso³

  • ¹ = Estudante do curso de agronomia URI Campus Santo Ângelo e membro do grupo de proteção de plantas URI Santo Ângelo.
  • ² = Estudante do curso de agronomia URI Campus Santiago e membro do grupo de proteção de plantas URI Santiago.
  • ³ = Professor Dr. da URI Campus Santo Ângelo e Santiago e coordenador do grupo de proteção de plantas URI Santo Ângelo e Santiago.

Foto de Capa: Dr. Marcelo Madalosso

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