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Mal-do-pé em trigo

O agente causal do mal-do-pé em trigo é o patógeno Gaeumannomyces graminis var. tritici (Sacc.) Arx. & Oliv., caracterizado como a principal doença radicular da cultura. A doença está presente nas principais áreas de produção de trigo no Sul do Brasil, sendo que as condições climáticas e os métodos de manejo adotados na área são fatores que determinam a ocorrência e a severidade da doença.

O fungo Gaeumannomyces graminis é um patógeno necrotrófico monocíclico. A infecção na planta ocorre via sistema radicular, a partir do início do desenvolvimento das plantas de trigo, podendo também infectar outras espécies de poáceas cultivadas no inverno, como o centeio (Secale cereale), o triticale (x Triticosecale Wittmack), a cevada (Hordeum vulgare) e o azevém (Lolium multiflorum) (EMBRAPA, 2010).

A sobrevivência do patógeno é dependente da existência de um hospedeiro, devido à falta de uma estrutura especializada em se manter viável quando não existe fonte nutricional disponível. Portanto, plantas suscetíveis e restos culturais são as principais vias de manutenção do inóculo.

A disseminação do patógeno ocorre, principalmente, via solo contaminado contendo peritécios, micélios do fungo ou ascosporos. Os animais, os implementos agrícolas e a ocorrência de erosão são algumas das formas de disseminação do patógeno via solo contaminado. O vento também é uma forma de disseminação, carregando os ascosporos que foram impulsionados dos peritécios com o contato da água da chuva ou irrigação. A ocorrência de dispersão via sementes é rara e pouco importante.

Figura 1. Peritécios de G. graminis liberando ascosporos.

Foto: Marcelo Madalosso

A infecção do patógeno nas plantas depende de alguns fatores, ocorrendo influência positiva em anos chuvosos e úmidos, com temperaturas variando entre 12º a 20 ºC, principalmente em áreas que possuem pH do solo neutro ou alcalino (pH > 6,5) (EMBRAPA, 2010; REIS et al., 1983). Em áreas de monocultura de trigo e em áreas de plantio direto onde a calagem é realizada sem incorporação, a severidade da doença é acentuada, podendo até mesmo inviabilizar o cultivo de trigo (SANTANA et al., 2012).

A sintomatologia do mal-do-pé em trigo fica mais pronunciável a partir da fase de antese, devido ao maior requerimento da planta por nutrientes e água. Os sintomas mais típicos ocasionados pelo ataque de G. graminis na parte aérea da cultura são plantas com porte menor e com menor número de perfilhos, além de um branqueamento característico das folhas e das espigas, em alguns casos resultando em morte de plantas.



Os sintomas da parte aérea são um reflexo da infecção que ocorreu no sistema radicular, pois devido ao ataque, as raízes ficam menores e menos numerosas, com uma maior deposição de lignina, o que afeta completamente sua capacidade de absorção (ASHER, 1972). Nessas condições, fica evidente uma coloração escura das raízes, devido a necrose dos tecidos e a concentração de peritécios e micélios (sinais) do fungo.

Figura 2. A esquerda, planta com sistema radicular apresentando os primeiros sintomas de mal-do-pé e a direita, planta infectada com sintoma típico de necrose radicular.

Foto: Marcelo Madalosso

A ocorrência de reboleiras com plantas mal desenvolvidas e brancas na lavoura é um dos principais indicativos de ocorrência de mal-do-pé, sendo que a confirmação pode ser feita retirando uma planta dessa reboleira. Se a planta ser facilmente destacada do solo ao simples esforço, e apresentar o sintoma característico de raízes negras e mal desenvolvidas, muito provavelmente será G. graminis.

Figura 3. Manchas em reboleiras causadas por mal-do-pé em trigo.

Foto: Marcelo Madalosso

O manejo deve ser realizado visando a melhoria do sistema produtivo. A rotação de culturas com plantas não hospedeiras do patógeno, como o nabo forrageiro (Raphanus sativus L.), aveia-preta (Avena sativa L.), canola (Brassica napus var. oleifera) e ervilhaca (Vicia sativa), a calagem nas doses ideias e nas formas de aplicação indicadas, o fornecimento de macro e micronutrientes conforme análise de solos e a formação de um perfil de solo estruturado, descompactado e bem drenado são as principais formas de manejar a doença, reduzindo assim a capacidade de severidade do fungo e aumentando a tolerância das plantas aos potenciais danos.

Além disso, deve-se atentar a ocorrência de plantas voluntárias que são hospedeiras do patógeno. No Rio Grande do Sul, a ocorrência de azevém guaxo torna o manejo da doença ainda mais complexo, principalmente pela dificuldade de controle e a resistência existente aos principais grupos químicos de herbicidas utilizados para o seu controle, sendo registrada ocorrência de resistência a EPSPs, ALS e ACCase (Heap, 2020).

Salienta-se que a rotação de culturas com plantas não hospedeiras perde acentuadamente a capacidade de redução do inóculo, em áreas em que não ocorre o controle eficiente de plantas voluntárias que são suscetíveis, ou quando não existe o cuidado com a limpeza dos implementos agrícolas contaminados.

Referências

ASHER, M.J.C. Effect of Ophiobolus graminis infection on the assimilation and distribution of 14C in wheat. Annals of Applied Biology, n. 72, p. 161-167, 1972.

EMBRAPA. Sistemas de produção para cereais de inverno sob plantio direto no sul do Brasil. Editores: Henrique Pereira dos Santos, Renato Serena Fontaneli e Silvio Tulio Spera. Embrapa trigo. Passo Fundo, 2010. 368 p.

Heap, I. The International Herbicide-Resistant Weed Database. Online. Thursday, July 16, 2020. Available  www.weedscience.org

REIS, E. M„ SANTOS, H.P. dos; LHAMBY, J.C.B. Rotação de culturas I – efeito sobre doenças radiculares do trigo nos anos 1981 e 1982. Fitopatología Brasileira, v.8, p.431-437, 1983.

SANTANA, F. M.; LAU, D.; MACIEL, J. L. N.; FERNANDES, J. M. C.; COSTAMILAN, L. M.  Manual de identificação de doenças de trigo. Documentos 108. Embrapa trigo. Passo Fundo, 2012. 43 p.

Equipe Mais Soja
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