Em um sistema de produção funcional e rentável, o fim de uma safra não significa o final das atividades. Para a obtenção de boas produtividades das culturas de verão, tais como soja e milho, é essencial pensar no sistema de produção como um conjunto de atividades que colaboram entre sim para o melhor desempenho produtivo e rentabilidade da propriedade.

Dessa forma, ao final da safra de verão, seja ela soja ou milho, deve-se dar início aos cultivos entressafra ou culturas de inverno. Conforme destacado por Fries (2018), a cultura antecessora à soja pode contribuir para o aumento da produtividade da oleaginosa, o mesmo é valido para o milho conforme Brenner et al. (2017).

No Rio Grande do Sul, durante o período de inverno há um predomínio do cultivo de aveia e trigo (tabela 1), entretanto, o consórcio/mistura de espécies de plantas de cobertura vem ganhando espaço, trazendo inúmeros benefícios ao sistema de produção, entretanto, ainda há uma baixa quantidade de área cultivada no inverno em comparação a área cultivada no verão, o que preocupa do ponto de vista agronômico, visto que grande parte da área que não é cultivada no inverno pode estar em pousio.



Tabela 1. Comparativo entre áreas cultivadas no Rio Grande do Sul e Brasil no ano de 2018 para culturas de inverno e safra 2018/2019 para culturas de verão.

Fonte: Silveira et al.

Conforme destacado por Fries (2018), o cultivo de plantas no período de inverno, sejam elas culturas comerciais ou plantas de cobertura, além de contribuir para o incremento de produtividade da cultura sucessora, possibilitam o controle de plantas daninhas através da cobertura do solo, especialmente se tratando de plantas fotoblásticas positivas, as quais necessitam de luz para germinar.

Conforme resultados obtidos por Fries (2018), é nítida a contribuição da cultura de cobertura na redução da fitomassa de plantas espontâneas (plantas daninhas), especialmente se tratando do cultivo de aveia-preta.

Tabela 2. Produção de soja (PS) em Kg/ha, com 125 dias após o plantio, Médias de Vagens por Plantas.

Fonte: Fries (2018)

A contribuição de produtividade decorrente do cultivo de plantas de cobertura também foi observada para a cultura do milho por Brenner et al. (2017). Além proporcionar melhor controle de plantas daninhas, pragas e doenças, a rotação de culturas utilizando plantas de cobertura implica diretamente na qualidade do solo.

Conforme observado por Valicheski et al. (2012), o cultivo de plantas de cobertura dependendo da espécie empregada pode proporcionar redução da resistência do solo a penetração, refletindo em melhor estrutura do solo e reduzindo sua compactação.

Uma das plantas que proporciona esse efeito é o nabo-forrageiro (Raphanus sativus), planta que embora produza menor quantidade de matéria seca em comparação a gramíneas como a aveia, apresenta considerável sistema radicular que possibilita “abrir espaço no solo”, contribuindo não só para sua descompactação, mas também melhoria de características de solo tais como taxa de infiltração e água, aeração, entre outros.

Figura 1.  Produção de matéria seca na parte aérea produzida pela parte aérea do nabo forrageiro e da aveia preta em função da resistência à penetração na camada de 0,0- 0,10 m.

Fonte: Valicheski et al. (2012)

A Baixa produção de matéria seca do nabo-forrageiro pode ser compensada por meio do cultivo dessa planta de cobertura em sistema de consórcio ou mix de plantas de cobertura com espécies de maior potencial em produzir matéria seca, tais como a aveia-preta ou azevém.

Além de todas as vantagens apontadas anteriormente do cultivo de plantas de cobertura, podemos destacar que elas podem ser utilizadas como estratégia de manejo para a semeadura de culturas de verão como a soja. Isso porque grande parte dessas plantas de cobertura possui considerável quantidade de água em suas estruturas.

Uma vez que as plantas de cobertura permaneçam vivas no sistema até a data de semeadura da soja ou milho, essas podem ser utilizadas como fonte de umidade e adubação para as culturas de verão, fato conhecido como “semeadura no verde”.

Basicamente a estratégia consiste na dessecação das plantas de cobertura próximo a semeaduras da cultura sucessora. Após a dessecação, com o auxílio de um rolo-faca, deve-se proporcionar maior contato entre plantas de cobertura e solo, a fim de facilitar a prática de semeadura, possibilitando melhor condição para que os discos de corte da semeadora cortem a massa verde das plantas de cobertura.

Figura 2. Utilização do rolo-faca para possibilitar maior contato planta/solo.

Fonte: Epagri

Figura 2. Semeadura do milho sob ervilhaca.

Foto: Henrique Pereira dos Santos

A estratégia possibilita com que as plantas de cobertura sirvam como fonte de adubo verde para a cultura de verão e também fonte de umidade para que as sementes germinem, sendo assim, uma interessante alternativa, especialmente para períodos de déficit hídrico.

De maneira geral, pode-se dizer que o cultivo de plantas de cobertura ou culturas entressafra das culturas de verão contribui significativamente para a produtividade dessas culturas, sustentabilidade e rentabilidade do sistema. Cabe ao agricultor e técnico responsável, definir qual a melhor estratégia de manejo, assim como a planta de cobertura ou cultura de inverno, com base nos interesses da propriedade, sistema de produção, custo e disponibilidade de insumos.


Veja também: Cultura antecessora pode contribuir com aumento de até 24% da produtividade da soja


Referências:

BRENNER, M. S. et al. INFLUÊNCIA DAS PLANTAS DE COBERTURA DO SOLO DE INVERNO NA PRODUTIVIDADE DA CULTURA DO MILHO. 62º Reunião Técnica Anual de Pesquisa do Milho & 45º Reunião Técnica Anual de Pesquisa do Sorgo, 2017. Disponível em: < http://www.abms.org.br/eventos_anteriores/rtams_2017/trabalhos_anais/1381.pdf >, acesso em: 09/04/2021.

EPAGRI. COMO ESCOLHER AS PLANTAS DE COBERTURA: CONFIRA DICAS DA EPAGRI. 2020. Disponível em: < https://www.epagri.sc.gov.br/index.php/2020/09/16/como-escolher-as-plantas-de-cobertura-confira-dicas-da-epagri/ >, acesso em: 09/04/2021.

FRIES, L. V. INFLUÊNCIA DE COBERTURAS DE INVERNO NA PRODUTIIDADE DA SOJA E NA POPULAÇÃO DE PLANTAS ESPONTÂNEAS. Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus de Laranjeiras do Sul, Trabalho de Conclusão de Curso, 2018. Disponível em: < https://rd.uffs.edu.br/handle/prefix/2900 >, acesso em: 09/04/2021.

SILVEIRA, D. C. et al. PLANTAS DE COBERTURA DE SOLO DE INVERNO EM SISTEMAS DE INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA. Plantio Direto, ed. 173. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/211687/1/6-Silveira-et-al-173.pdf >, acesso em: 09/04/2021.

VALICHESKI, R. R. et al. DESENVOLVIMENTO DE PLANTAS DE COBERTURA E PRODUTIVIDADE DA SOJA CONFORME ATRIBUTOS FÍSICOS EM SOLO COMPACTADO. R. Bras. Eng. Agríc. Ambiental, v.16, n.9, p.969–977, 2012. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/rbeaa/v16n9/v16n9a07.pdf >, acesso em: 09/04/2021.

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