O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito do período de armazenamento na tensão superficial e densidade das caldas de pulverização.

Autores: LUIZ A. I. FERREIRA1, ADENILSON DE S. DA SILVA2, VINÍCIUS A. MARTINS2, LAÍS M. B. PRECIPITO3, GABRIEL ROMANO2, GIOVANNA G. MARANHO2, ANDRÉ A. F. LUCIANETTI4, RONE B. DE OLIVEIRA5

Trabalho disponível nos Anais do Evento e publicado com o consentimento dos autores.

Introdução

A pulverização de produtos fitossanitários envolve diversos aspectos relacionados a tecnologia de aplicação, entre eles, a seleção de pontas, o tipo de equipamento e as características físicas das caldas. Dentre essas características, destacam-se a tensão superficial, pois a retenção e a adesividade da calda na superfície foliar é consequência de uma boa área de molhamento (TANG; DONG, 2008). E a densidade, que influencia no processo de formação da gota, sendo que seu entendimento é fundamental para o sucesso das pulverizações (CUNHA et al., 2010). Outro fator que está associado a eficiência da pulverização, são as condições agrometeorológicas. Recomenda-se realizar as aplicações com temperaturas de até 30ºC, umidade relativa do ar acima de 55% e ventos de até 12 km h-1 (CUNHA et al., 2016). No entanto, variabilidades agrometeorológicas podem gerar condições desfavoráveis e interromper ou impedir a realização da pulverização logo após o preparo da calda, consequentemente, ocorre a necessidade de armazená-las até que as condições se tornem ideais (STEWART et al., 2009). O armazenamento gera preocupações que incluem a degradação química e alterações nas propriedades físicas das caldas, podendo afetar seu desempenho e comprometer a eficiência dos produtos utilizados. Com isso, objetivou-se avaliar o efeito do período de armazenamento de caldas de pulverização na tensão superficial e densidade.

Material e Métodos

O experimento foi realizado no Núcleo de Investigação em Tecnologia de Aplicação e Máquinas Agrícolas (NITEC), da Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP/Bandeirantes – PR. O delineamento foi inteiramente casualizado (DIC) com vinte e cinco tratamentos e quatro repetições. Os tratamentos foram caracterizados pelas caldas: glyphosate (Roundup original®, 3 L ha-1); 2,4-D (DMA® 806BR, 1,5 L ha-1); clethodim (Select 240 EC®, 0,8 L ha-1); glyphosate + 2,4-D + óleo vegetal de milho (Roundup original®, 3 L ha-1 + DMA® 806BR, 1,5 L ha-1 + IOP®, 0,5% v v-1) e glyphosate + clethodim + óleo mineral (Roundup original®, 3 L ha-1 + Select 240 EC®, 0,8 L ha-1 + Assist® 0,5% v v-1).

Ambas submetidas a cinco períodos de armazenamento: momento do preparo (0 dias) e com 1, 2, 4 e 8 dias após o preparo (DAP). As caldas foram formuladas em balões volumétricos de 1000 mL e em seguida foram realizadas as análises de tensão superficial e densidade, correspondendo ao período de armazenamento de 0 dias. No dia seguinte, as caldas foram avaliadas novamente, o que corresponde ao armazenamento de 1 DAP, e assim sucessivamente. Esse método permite que todas as análises sejam realizadas com as mesmas caldas, evitando possíveis erros de dosagem. Durante o armazenamento, os balões permaneceram fechados no laboratório em temperatura ambiente e receberam agitação manual uma vez ao dia. Para a realização da tensão superficial foi utilizada uma balança de precisão em gramas com cinco casas decimais, bureta de 50 mL e cronômetro.

A tensão superficial de todos os tratamentos foi estimada quantificando-se a massa não acumulativa de 25 gotas formadas na extremidade da bureta, no tempo de 15 a 30 segundos entre gotas. No início dos procedimentos, foi utilizada uma bureta calibrada somente com a massa da água destilada. A bureta foi utilizada para formar a tensão superficial das gotas em sua extremidade. Para que não houvesse interferência no caminhamento das gotas durante o percurso de queda, em todos os tratamentos foi padronizada a altura de 5 cm da extremidade inferior do copo. A calibração da bureta foi realizada com auxílio de um cronômetro, onde acompanhou-se o tempo inicial de formação da gota até a queda total pela ponta da bureta. Para determinação da densidade das caldas, foi utilizada uma balança de precisão em gramas com cinco casas decimais, balões volumétricos (100 mL), copo de Becker e conta gotas. A massa do balão foi tarada e com o auxílio do copo de Becker e do conta gotas, a calda foi depositada no mesmo até atingir o menisco. Com o valor da massa em gramas e o volume em mL, a densidade das caldas foi calculada com o auxílio da Equação 1.

?=m/v                                                                                                                        Eq 1.

Em que:

d= densidade da solução (kg m-3); m= massa da calda (kg); v= volume da calda (m3);

Os dados da massa das gotas foram convertidos para tensão superficial, considerando como 0,0726 N m-1 a tensão superficial da água destilada (OLIVEIRA, 2011). A normalidade dos dados foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk (P<0,05) e a homogeneidade da variância pelo teste de Levene. Foi aplicada a análise de variância pelo teste F e as médias foram comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.

Resultados e Discussão

Na Figura 1, estão apresentados os valores médios de tensão superficial (mN m-1) das caldas de pulverização, relacionados com os dias após o preparo utilizados nos experimentos. Analisando as caldas individualmente, os valores da tensão superficial foram similares independente do período de armazenamento, não ocorrendo diferenças significativas. A ausência de alterações na tensão superficial, é um fator positivo no armazenamento das caldas, e devido aos valores encontrados principalmente nas caldas que possuem óleo em sua composição, apresentam grande potencial de molhamento.

Figura 1. Tensão superficial média (mN m-1) das caldas de pulverização em função dos dias após o preparo (DAP). Médias acompanhadas de mesmas letras, maiúsculas para as caldas entre si e minúsculas para as diferentes caldas dentro de cada período de armazenamento, não diferem significativamente pelo teste de Tukey (p<0,05).

Comparando as caldas de pulverização dentro de cada período de armazenamento, observa-se que o comportamento foi similar ao decorrer das avaliações. O herbicida 2,4-D apresentou valores de tensão superficial acima de 60 mN m-1 em todos os períodos de armazenamento. Resultados similares foram encontrados por Silva-Matte et al. (2014), e segundo os autores, o herbicida não apresenta característica surfactante, sendo necessário adicionar algum adjuvante para melhorar as características físicas e químicas da calda. Dentre os herbicidas utilizados isoladamente no experimento, o glyphosate é o que apresenta menor tensão superficial, que segundo Oliveira et al. (2015), possui valores próximos a 40 mN m-1, podendo estar relacionado com a presença de diferentes surfactantes em sua formulação (CASTRO et al., 2018). As caldas compostas por glyphosate + clethodim + Assist e glyphosate + 2,4-D + IOP apresentaram tensão superficial inferior, diferindo estatisticamente das demais. Esses resultados indicam que a adição do óleo, independente de origem vegetal ou mineral, é capaz de reduzir a tensão superficial, conferindo maior área de molhamento da calda aplicada.


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Segundo Mendonça, Raetano e Mendonça (2007), existem variações na tensão superficial dos óleos minerais e vegetais que é promovido pela quantidade e qualidade de emulsificante adicionado a formulação. Na Figura 2, estão apresentados os valores de densidade das caldas de pulverização em função dos dias após o preparo. Todas as caldas apresentaram valores de densidade próximos ao da água (1,0 kg m-3), com alterações apenas nas duas últimas casas decimais, concordando com Oliveira e Antuniassi (2012) que em trabalho com o objetivo de avaliar o efeito da adição de surfactantes nas caldas de pulverização chegaram a resultados similares. Em estudo realizado por Cunha, Alves e Reis (2010), a adição dos adjuvantes não promoveu variação na densidade das caldas, relataram também, que modificações na densidade não são obtidas com facilidade devido à baixa concentração do adjuvante em relação a água.

Figura 2. Densidade (g mL-1) das caldas de pulverização em função dos dias após o preparo (DAP). Médias acompanhadas de mesmas letras, maiúsculas para as caldas entre si e minúsculas para as diferentes caldas dentro de cada período de armazenamento, não diferem significativamente pelo teste de Tukey (p<0,05).

Conclusões

O armazenamento por até 8 dias não gera alterações na tensão superficial e na densidade das caldas de pulverização.

Agradecimentos

A equipe do Núcleo de Investigação em Tecnologia de Aplicação e Máquinas Agrícolas e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.

Referências

CASTRO, E.B. et al. Influence of adjuvants on the surface tension, deposition and effectiveness of herbicides on fleabane plants. Planta Daninha, v.36, e:018166251, 2018.

CUNHA, J.P.A.R.; ALVES, G.S.; REIS, E.F. Efeito da temperatura nas características físico-químicas de soluções aquosas com adjuvantes de uso agrícola. Planta Daninha, v.28, n.3, p.665-672, 2010.

CUNHA, J.P.A..R.; BUENO, M.R.; FERREIRA, M.C. Espectro de gotas de pontas de pulverização com adjuvantes de uso agrícola. Planta Daninha, v. 28, p.1153-1158, 2010.

CUNHA, J.P.A.R. et al. Pesticide application windows in the region of Uberlândia-MG. Bioscience Journal, v.32, n.2, p.403-411, 2016.

MENDONÇA, C.G.; RAETANO, C.G.; MENDONÇA, C.G. Tensão superficial estática de soluções aquosas com óleos minerais e vegetais utilizados na agricultura. Engenharia Agrícola, Jaboticabal, v.27, p.16-23, 2007.

OLIVEIRA, R. B. Caracterização funcional de adjuvantes em soluções aquosas. 2011. 134 f. Tese (Doutorado em Agronomia/Energia na Agricultura) – Faculdade de Ciências Agronômicas, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, 2011.

OLIVEIRA, R.B.; ANTUNIASSI, U.R. Caracterização física e química e potencial de deriva de caldas contendo surfatantes em pulverizações agrícolas. Energia na Agricultura, Botucatu, v.27, n.1, p.138-149, 2012.

OLIVEIRA, R.B. et al. Influence of the glyphosate formulations on wettability and evaporation time of droplets on different targets. Planta Daninha, Viçosa-MG, v.33, n.3, p.599-606, 2015.

SILVA-MATTE, S.C. et al. Variabilidade da quebra da tensão superficial da gota pelo adjuvante (Aureo®) em função de locais de captação de água. Revista Agrarian, v.7, n.224, p.264-270, 2014.

STEWART, C.L. et al. How long can a herbicide remain in the spray tank without losing efficacy? Crop Protection, v. 28, n. 12, p. 1086-1090, 2009.

TANG, X.; DONG, J. A comparison of spreading baheviors of Silwet l-77 on dry and wet lotus leaves. Journal of Colloid and Interface Science, v.325, p.223-227, 2008.

Informações dos autores

1Engenheiro Agrônomo, Doutorando, Universidade Estadual de Maringá, UEM, Maringá/PR, luizinojosaf@gmail.com;

2Graduando (a) em Agronomia, Universidade Estadual do Norte do Paraná, UENP, Bandeirantes/PR;

3Engenheira Agrônoma, Doutoranda, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, UNESP, Botucatu/SP;

4Engenheiro Agrônomo, Mestrando, Universidade Estadual do Norte do Paraná, UENP, Bandeirantes/PR.

5Engenheiro Agrônomo, Professor Titular, Departamento de Engenharia Rural, Universidade Estadual do Norte do Paraná, UENP, Bandeirantes/PR.

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