O capim-amargoso é uma espécie daninha, perene, altamente competitiva que tem se tornado de grande importância nos últimos anos, devido ao fato de algumas populações terem sido selecionadas como resistentes ao glifosato e mais recentemente a inibidores de ACCase.

A planta se propaga principalmente através de sementes, mas depois de entouceirada também se propaga por rizomas, dificultando ainda mais o seu controle. Pode florescer e disseminar sementes com baixos níveis de dormência durante o ano todo e possui grande relevância em lavouras de algodão, milho e soja.

A repetida utilização dos mesmos herbicidas nos últimos anos, e a carência de novos mecanismos, têm causado a pressão de seleção em algumas espécies de plantas daninhas, com consequente surgimento de populações resistentes, como foi o caso do capim-amargoso.


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O primeiro caso de resistência de capim-amargoso ao herbicida glyphosate foi registrado no Paraguai no ano de 2005. No Brasil, a resistência de capim-amargoso (Digitaria insularis) ao herbicida foi registrada pela primeira vez no ano de 2008, no estado do Paraná. Em 2016, na região Centro Oeste do país, foi registrada a resistência de capim-amargoso aos herbicidas inibidores da ACCase, como fenoxaprop e haloxyfop (Heap, 2019).

O capim-amargoso é uma Poaceae perene, com fotossíntese C4 e com propagação por sementes (de fácil transporte pelo vento) ou também por rizomas (Kissmann, 1997). As plantas quando perenizadas formam touceiras, com muitos afilhos, o que dificulta ainda mais o controle dessa planta daninha.

Danos

Atualmente, estima-se que existem cerca de 8,2 milhões de hectares da planta daninha resistentes no país, produzindo aproximadamente 6,5 mil sementes/planta, sendo dispersas pelo vento e equipamentos agrícolas, principalmente. Na cultura da soja, o dano causado por capim-amargoso é de cerca de 23,5% em casos onde existem entre 1 a 3 plantas daninhas m2 e de 44,5% quando há a presença de 4 a 8 plantas daninhas m2.

Já o custo médio para controle de capim-amargoso em uma área com resistência é de cerca de R$ 318,25/ha, e caso ocorra, na mesma área a presença de buva, também resistente, o custo médio aumenta para R$ 386,65/ha, segundo estudo.


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Em trabalho onde avaliou-se os efeitos da convivência do capim-amargoso na produtividade da soja, pode-se observar uma redução de 44% no rendimento, ou 25 sacos ha-1 de perdas devido à presença do capim-amargoso.

As figuras 1 e 2, abaixo, podem ser observados os resultados obtidos pelos autores.

Fonte: Embrapa.
Fonte: Embrapa.

Machado et al., 2006 observaram que as plantas de capim-amargoso apresentam crescimento inicial lento até os 45 dias da sua emergência e um rápido incremento das raízes a partir dos 45 dias, que se deve à formação dos rizomas. Dessa forma, o melhor período para controle de capim-amargoso é até os 35 dias após a emergência, ou seja, quando os rizomas ainda não foram formados, ou seja, no início do desenvolvimento, com no máximo 4 perfilhos, sendo o ideal até 2 perfilhos.

Para o controle de capim-amargoso resistente ao glyphosate, uma alternativa muito utilizada é o uso de graminicidas, como clethodim e haloxyfop. Contudo, é importante ressaltar que como a planta possui capacidade de rebrota (rebrota a partir do rizoma também), a aplicação única de herbicidas, mesmo em altas doses, não é suficiente para um controle eficaz de capim-amargoso perenizado, com necessidade de aplicações sequenciais de graminicidas em associações, devendo-se sempre atentar para não estar utilizando sempre os mesmos produtos, forçando uma resistência dos mesmos.

Pensando nisso, na terceira temporada do Dicas Mais Soja, o pesquisador da UFPR e supervisor do Supra Pesquisa, Alfredo Albrecht, comentou sobre o manejo eficiente de capim-amargoso, buscando reduzir o uso de Inibidores de ACCase para evitar os casos de resistência e sobre as ferramentas utilizadas para preservar os graminicidas.



O pesquisador ressalta que após anos de pesquisas e experimentos sendo realizados com a planta, o que pode-se recomendar é que o manejo seja realizado quando as plantas ainda estiverem com um porte menor, podendo, nessa fase, serem controladas com algum produto de contato como Paraquat e Amônio glufosinato.

Porém, se a planta já estiver com um porte maior, rebrotada ou com touceira e rizoma, o controle começa a ficar mais complexo, devendo-se, nesses casos, pensar em aplicações sequenciais, por exemplo.

Conforme destacado pelo pesquisador, sabendo-se que o capim-amargoso já é resistente ao glifosato, e a cada ano, por pressão de seleção ele se mostra mais resistente aos inibidores da ACCase, o que deve ser feito na lavoura é preservar-se ao máximo o uso desses inibidores de ACCase para não causar ainda mais uma pressão de seleção e acabarmos por perder essa ferramenta tão importante no manejo das lavouras.

Nesse caso, para plantas grandes no campo, um exemplo de manejo que pode ser utilizado seria em utilizar de 2 a 3 intervenções, podendo ser a primeira uma roçada e posteriormente uma aplicação que deve ser repedida caso houver brotação após a primeira.


Saiba mais: Plantas daninhas de difícil controle na cultura da soja: capim-amargoso


 

Uma das opções que podem ser utilizadas é o uso do Glifosato somado ao Imazapir ou Imazapique, cerca de 30 ou mais dias antes da implantação da cultura da soja. Essa opção já dispensaria o uso de um inibidor de ACCase.

No momento da rebrota, o uso de Paraquat ou Amônio glufosinato em uma segunda aplicação, antes da cultura da soja. Pode-se assim, retirar mais um dos inibidores da ACCase. Dentro da cultura da soja, Glifosato associado a um graminicida já proporciona a retirada de dois produtos, cujo grupo vem apresentando pressão de seleção no controle de capim-amargoso.

Para ouvir a conversa do pesquisador com o Mais Soja, assista o vídeo abaixo.



Elaboração: Engenheira Agrônoma Andréia Procedi – Equipe Mais Soja.

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