A manutenção do potencial produtivo da cultura da soja, desde a emergência das plantas, possui reflexos diretos no estádio reprodutivo de desenvolvimento, visto que afeta diretamente a produtividade de grãos das lavouras. O complexo de percevejos fitófagos está entre os maiores inimigos a serem combatidos no final do ciclo da soja. Os percevejos mais comuns na soja são, por ordem de importância, o percevejo-marrom (Euschistus heros), percevejo-verde (Nezara viridula), percevejo verde-pequeno (Piezodorus guildinii) e percevejo barriga-verde (Dichelops sp.) (Figura 1).

Figura 1. Espécies de percevejos mais frequentes em lavouras de soja.

Fonte: Promip. Confira a imagem original Clicando Aqui

Os danos podem ocorrer de forma direta, reduzindo o peso, tamanho e qualidade dos grãos; e também de forma indireta, reduzindo os teores de germinação e vigor das sementes. Além disso, pode ocorrer o abortamento de vagens e grãos e, ainda, a injúria ocasionada pode servir de porta de entrada para microrganismos e fungos que afetam o desenvolvimento das plantas de soja. Todos esses danos são consequência da alimentação do inseto, visto que ao sugar diretamente os grãos o mesmo injeta toxinas nas plantas ocasionando diferentes distúrbios fisiológicos como, por exemplo, a retenção foliar.

A formação dos primeiros casais de percevejos (presentes desde a safra anterior) ocorre no período em que as plantas de soja estão iniciando a fase reprodutiva. Esses casais começam a oviposição dos ovos que darão origem à primeira geração de adultos da safra. Esse período é chamado de colonização dos percevejos na lavoura, ocorrendo geralmente até o estágio fenológico R2 (CORREA-FERREIRA et al., 1999).

O período compreendido entre os estágios R3 e R6, ou seja, do início da formação de vagens (“canivetinho”) até o total enchimento dos grãos, é o que necessita de maior atenção quanto ao ataque de percevejos, já que os danos ocasionados nessa fase acarretam em severos prejuízos na produtividade de grãos. É imprescindível que se realize o monitoramento periódico das lavouras de soja durante esse intervalo, preferencialmente com uso do pano de batida para obter-se um melhor diagnóstico. Quando as plantas de soja estão entrando na fase de maturação (a partir de R7), o controle visando à safra atual pode ser menos rigoroso, visto que as plantas já estão entrando em fase de maturação e senecência.

De acordo com estudos da Fundação MS, o controle antecipado do percevejo-marrom (espécie de maior importância na soja) no início do florescimento da cultura (R1) ocasiona a quebra do ciclo da praga. Somado a isso, uma segunda aplicação no início do enchimento de grãos (R5) mantém a praga próxima ao nível de controle, sem ocasionar danos econômicos (Figura 2).

Figura 2. Flutuação populacional de percevejo-marrom ao longo do ciclo da soja, em tratamentos sem controle, com controle após estabelecimento da população e com controle antecipado.

Fonte: Grigolli (2016).

Podemos notar que o controle entre R3 e R6 também foi efetivo na redução da população infestante, porém sendo necessárias três aplicações. Já no tratamento com controle antecipado, foram utilizadas apenas duas aplicações de inseticidas, gerando maior eficiência e rentabilidade no manejo. Somado a isso, estudos de Fernandes & Ávila (2017) demonstram que quanto maior a quantidade de percevejos infestando a lavoura entre os estágios R4 e R5, maiores são as reduções na produtividade de grãos.

É importante destacar que quando as plantas atingem a maturação plena (R8) os percevejos começam a migrar para plantas hospedeiras alternativas e se dispersam, podendo passar por períodos de oligopausa até a nova safra de soja. Desse modo, o controle químico visando reduzir a população remanescente é uma alternativa viável, visto que a população colonizadora da próxima safra será menor.

No entanto, é preciso tomar cuidado com a indução de populações resistentes, já que os inseticidas registrados atualmente para o controle de percevejos na soja pertencem basicamente a três classes de modos de ação: piretroides (ex: lambda-cialotrina), neonicotinoides (ex: tiametoxam) e organofosforados (ex: acefato). Por outro lado, é comum que inseticidas de diferentes modos de ação sejam combinados em um mesmo produto formulado (ex: lambda-cialotrina + tiametoxam no Engeo Pleno S®), reduzindo os riscos de surgimento de resistência (Agrofit, 2021).

Vale ressaltar que para obter-se um controle efetivo é recomendado realizar-se a pulverização no início da manhã, visto que os percevejos possuem o hábito de subir para o dossel superior da planta nas primeiras horas do dia, em busca de radiação solar. Portanto, recomenda-se monitorar a população de percevejos a partir do aparecimento dos legumes (vagens) na cultura da soja, com cuidado especial entre os estágios R3 e R6, e um controle feito preferencialmente de forma antecipada.

Destaca-se ainda que a rotação dos mecanismos de ação é uma medida essencial para evitar o surgimento de populações resistentes aos inseticidas. Ademais, o controle visando inibir populações remanescentes de percevejos no final da safra é uma alternativa interessante dentro do contexto do manejo integrado de pragas (MIP), resultando em uma redução da população colonizadora no início da safra seguinte.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



REFERÊNCIAS:

AGROFIT. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Disponível em < http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons >. Acesso: 06 de abril de 2021.

ALVES, E.B. Percevejos da Soja. Promip. Disponível em < https://www.promip.agr.br/percevejos-da-soja/ >.

CORREA-FERREIRA, BEATRIZ S.; PANIZZI, ANTÔNIO R. Percevejos da soja e seu manejo. Embrapa Soja-Circular Técnica, n. 24, (INFOTECA-E), 1999. Disponível em < https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/circTec24_000g4vbbaaq02wx5ok0dkla0s1m9l51b.pdf >.

GRIGOLLI, J. Pragas da soja e seu controle. Fundação MS, Tecnologia e Produção: Soja 2015/2016. Disponível em < https://www.fundacaoms.org.br/base/www/fundacaoms.org.br/media/attachments/272/272/5ae094adae692b52cb18ab138a3cb3cb661f0692c97fc_capitulo-05-pragas-da-soja-somente-leitura-.pdf >.

FERNANDES, P.H.R; ÁVILA, C.J. Potencial de danos causados pelo percevejo marrom Euschistus heros (Hemiptera: Pentatomidae) na cultura da soja. Danos e Controle do Percevejo Marrom (Euschistus heros) em Soja e do Percevejo Barriga-Verde (Dichelops melacanthus) em Milho, p. 25, 2017.

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