Para a manutenção do sistema produtivo, manutenção dos níveis de controle, viabilidade da produção, sustentabilidade e conservação do solo e recursos é fundamental o uso da rotação, por exemplo, de culturas.  A rotação de culturas traz inúmeros benefícios ao sistema de produção, desde controle de erosão até o aumento da matéria orgânica do solo, incremento da fertilidade e produtividade das culturas, controle de doenças, entre outros. Contudo, apenas a rotação de culturas não é suficiente para um sistema produtivo ser sustentável e rentável. Pensando nisso, uma outra rotação deve ser inserida no sistema: “a rotação de mecanismos de ação dos agroquímicos”

 Mas por que fazer rotação de mecanismos de ação?

Em uma lavoura, uma grande quantidade de variáveis interferem na produtividade e sanidade de uma cultura, mas o ataque de insetos, doenças e a competição com plantas daninhas se destacam afetando de forma direta a produtividade.

Na grande maioria das propriedade rurais, o controle de pragas, plantas daninhas e doenças é realizado por meio do controle químico, porém, caso este método não seja utilizado de forma correta, pode acarretar em um aumento na resistência dos insetos, doenças e plantas daninhas.

Segundo PAPA et. al, (2014), o principal fator promotor de resistência a um mecanismo de ação é sua utilização errônea, ou seja, uso de doses não recomendadas, momento incorreto de aplicação ou excessivo uso do mesmo mecanismo de ação. Segundo MARCHI et. al, (2008) para os herbicidas, é possível classifica-los com base nas formas de aplicação e dentro de cada uma delas seus respectivos mecanismos de ação.

Veja:

Herbicidas aplicados no solo:

– Inibidores de crescimento de plântulas

– Inibidores de fotossistema II

Herbicidas aplicados nas folhas (de contato):

– Inibidores do fotossitema II

– Degradadores de membrana celular

– Inibidores do metabolismo do nitrogênio

Herbicidas aplicados nas folhas (sistêmicos)

– Reguladores de crescimento

– Inibidores da síntese de aminoácidos aromáticos

– Inibidores da síntese de lipídeos

Na tabela 1 estão resumidos os modos de ação dos herbicidas, seu local de aplicação e principais plantas que controlam.

Tabela 1. Local de aplicação, principais mecanismos de ação dos herbicidas e plantas daninhas controladas.

Onde: G = gramíneas, D = dicotiledôneas, C = ciperáceas
Adaptado: MARCHI et. al, (2008).

Dentre as opções de mecanismos de ação de herbicidas citadas acima, é importante para o manejo de plantas daninhas identificar a família da planta a ser controlada e a quais mecanismos de ação a planta já apresenta resistência. Na figura 1 é possível observar as 10 famílias com maior número espécies de plantas resistentes a mecanismo de ação dos herbicidas.

Figura 1. As 10 famílias com maior número de espécies de plantas daninhas resistentes a mecanismos de ação dos herbicidas.

Adaptado: Heap, I. (2019)

Conhecer as espécies que apresentam resistência a dado mecanismo de ação facilita o manejo e o torna mais econômico e eficiente, contribuindo para o sucesso do sistema produtivo. No controle da Buva (Conyza sp.) por exemplo, o glifosato já não apresenta eficientes resultados, logo, trabalhar com outros mecanismos de ação é uma ferramenta indispensável para o controle de plantas daninhas e diminuir sua interferência na produtividade da lavoura. Felizmente, há disponível diferentes produtos, com diferentes mecanismos de ação para que este controle possa ser realizado (figura 2), mas é muito importante que atitudes pró ativas sejam tomadas para que as eficiências sejam mantidas por um maior período de tempo.

Figura2.  Rendimento de grãos (sc ha-1) de plantas de soja com diferentes manejos herbicidas, Amambai, MS, 2016.

Medidas seguidas pela mesma letra maiúscula na coluna não diferem estatisticamente entre si pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade. nsnão significativo, * e ** significativo a 5% e 1% respectivamente. Fonte: GRIGOLLI (2016).

Outra importante contribuição da rotação de mecanismos de ação é quanto à manutenção de outras tecnologias já existentes (não apenas agroquímicos), um exemplo é a tecnologia Bt. A tecnologia Bt permite o controle biológico de algumas lagartas, contudo a utilização dessa ferramenta requer cautela, pois seu uso de forma errônea pode comprometer sua eficiência. No caso da utilização do Bt, o mais aconselhado é fazer uso de áreas de “refúgio”, dessa forma, os organismos que se desenvolvem na área de refúgio tendem a reproduzir com os organismos sobreviventes da área Bt (organismos resistente), diminuindo a resistência das futuras gerações.

Quais pragas controladas pela soja Bt?

Na tabela 3 são apresentadas as principais pragas controladas pela tecnologia Bt para a cultura da soja:

Tabela 3. Pragas controladas pela soja Bt.

Adaptado: Boas Práticas Agronômica (2020).

Veja também: Tecnologia Bt – importância e cuidados na sua utilização

O uso de diferentes mecanismos de ação no controle das pragas atua justamente na diminuição da resistência dessas pragas ao controle químico, na tabela 2 é possível verificar que várias lagartas são controladas pela tecnologia, contudo o manejo inadequado do controle químico pode acarretar na ineficiência da tecnologia pelo aumento da resistência.

Os principais mecanismos de ação para o controle de insetos são:

– Moduladores de canais de sódio

– Inibidores da enzima acetilcominesterase

– Agonista da Acetilcolina

– Moduladores de receptores da acetilcolina

– Agonistas do GABA

– Inibidores da biossíntese de quitina

– Agonistas de ecdisteroides

– Ativadores dos receptores de rianodina

São muitas as opções, mas conhece-los e saber seu melhor momento de uso e fundamental, pois o uso de produtos com distintos e mecanismos de ação fortalece o sistema produtivo, torna mais eficiente o controle de pragas, plantas daninhas e doenças, além de contribuir para a conservação da funcionalidade das tecnologias já existentes, então atente para as rotações, sendo elas entre áreas de cultivo, culturas, cultivares ou mecanismos de ação de agroquímicos, todas elas apresentam benefícios que devem ser analisados para o sucesso do sistema produtivo.

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Referências:

BERNARDI et. al,. MANEJO DA RESISTÊNCIA DE INSETOS A PLANTAS Bt. Promip – Manejo Integrado de Pragas, ed. 1, 2016.

BOAS PRÁTICAS AGRONÔMICAS. Soja Bt. Disponível em: https://boaspraticasagronomicas.com.br/culturas-bt/soja-bt/, acesso em 17/03/2020.

H. Walker resistentes aos inibidores da ALS e EPSPs1. Rev. Ceres, Viçosa, v. 62, n.6, p. 531-538, 2015

GRIGOLLI, J. F. J. MANEJO E CONTROLE DE PLANTAS DANINHAS NA CULTURA DA SOJA. Fundação MS, 2016. Disponível em: http://www.fundacaoms.org.br/base/www/fundacaoms.org.br/media/attachments/238/238/newarchive-238.pdf, acesso em: 18/03/2020.

HEAP, I. INTERNATIONAL SURVEY OF HERBICIDE-RESISTANT WEEDS. WeedScienci.org, 2019.

MARCHI, et. al., HERBICIDAS: MECANISMO DE AÇÃO E USOS. Embrapa, Documento, 227, 2008.

PAPA, et. al,. MANEJO DE RESISTÊNCIA DE PRAGAS A AGROTÓXICOS. Embrapa, 2014, disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/115150/1/Botton2014-Manejo-Resistencia-Pragas-Agrotoxicos.pdf  acesso em 17/03/2020.

SANTOS et. al,. Herbicidas alternativos para o controle de Conyza sumatrensis (Retz.)

VARGAS, L.; GAZZIERO, D. L. P. MANEJO DE BUVA RESISTENTE AO GLIFOSATO. Embrapa Trigo, Documentos, 91, 2009.

Redação: Maurício Siqueira dos Santos – Eng. Agrônomo.

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