A palhada em cobertura do solo é um item fundamental no sistema plantio direto. Além de promover proteção ao solo contra erosões superficiais, reduzindo o impacto da gota da chuva, a palhada atua diretamente no controle de plantas daninhas, especialmente as fotoblásticas positivas. Sendo assim, a definição das culturas entressafra e culturas de cobertura é essencial para estabelecer um sistema de cultivo eficiente e que atenda às necessidades da propriedade e produtor.

Algumas plantas podem exercer efeito alelopático sobre outras, logo, a definição da planta a ser utilizada na cobertura vegetal deve levar em consideração esse efeito alelopático quando existente. Conforme descrito pela Embrapa, a alelopatia ocorre quando uma planta libera substâncias químicas no ambiente, quer seja pela lavagem de resíduos culturais que ficam na superfície do solo ou pela liberação de exudatos através das raízes. Esses compostos podem afetar a germinação, o crescimento ou até mesmo o desenvolvimento de outras plantas da mesma espécie ou espécies distintas.

Dentre as plantas de cobertura mais empregadas no sistema plantio direto, o azevém (Lolium multiflorum) é comumente encontrado nos sistemas de cultivo, especialmente no Sul do Brasil. O azevém apresenta ciclo relativamente precoce, o que permite a colheita das sementes ou ressemeadura natural da cultura (Embrapa), o que faz do azevém uma interessante alternativa como fonte de cobertura no sistema plantio direto nas regiões Sul do Brasil.  Além disso, o ciclo da cultura permite a adoção do sistema de integração lavoura pecuária, sistema esse muito utilizado especialmente no Rio Grande do Sul.

Além dessas características, o azevém também é conhecido por apresentar efeito alelopático sobre plantas daninhas e algumas culturas, sendo assim, seu uso requer planejamento.  Para o cultivo de culturas mais suscetíveis a seus efeitos alelopáticos, deve-se atentar para o período de dessecação do azevém, a fim de reduzir os efeitos da emergência da cultura sucessora.

Conforme observado por Paulino et al. (2017), avaliando o potencial alelopático de extratos de ervilhaca, aveia-preta e azevém, na germinação de sementes e crescimento inicial de plântulas de milho, os compostos alelopáticos presentes nessas culturas de cobertura alteram o percentual de plântulas normais e a velocidade de germinação de sementes de milho, entretanto, o fato também está relacionado com a dose do composto alelopático.



Embora cuidados sejam necessários quando inserido o azevém no sistema de cultivo, avaliando o “manejo de plantas de cobertura no controle de plantas daninhas na cultura do milho”, Moraes et al. (2009), observaram que dentre as plantas de cobertura avaliadas pelos autores (azevém, nabo-forrageiro e trevo-vesiculoso), o azevém proporcionou maior redução do número de plantas daninhas emergidas, tanto aos 15 dias após a emergência (DAE) da cultura do milho, quando aos 45 DAE.

Quadro 1. Número de plantas daninhas emergidas (m2), em função das coberturas de solo aos 15 e 45 dias após emergência da cultura do milho. CAP/UFPel, Capão do Leão-RS, 2006/07 (Moraes et al., 2009).

Fonte: Moraes et al. (2009).

 Além de promover maior controle da emergência de plantas daninhas, conforme observado por Moraes et al. (2009), dentre as culturas de coberturas avaliadas, a maior cobertura do solo foi observada com o uso do azevém e do nabo-forrageiro (quadro 2).

Quadro 2. Área coberta de solo pelas espécies vegetais aos 90 e 145 dias após emergência (DAE) e matéria seca de cobertura aos 145 DAE. CAP/UFPel, Capão do Leão-RS, 2006/07 (Moraes et al., 2009).

Fonte: Moraes et al. (2009).

Confira o trabalho de Moraes et al. (2009) clicando aqui!

Tendo em vista os aspectos observados e os resultados encontrados por Moraes et al. (2009), nota-se que o uso de plantas com alelopatia pode ser uma interessante alternativa no manejo integrado de plantas daninhas, entretanto, o uso dessas requer planejamento, a fim de não interferir negativamente em culturas comerciais. Uma alternativa é a dessecação da cultura de cobertura com antecedência à semeadura da cultura posterior.


Veja também: Soja após Crotalária: aumento da produtividade e controle de nematoides 


Referências:

EMBRAPA TRIGO. ALELOPATIA. Embrapa Trigo, Documentos, n. 61, 2006. Disponível em: < http://www.cnpt.embrapa.br/biblio/do/p_do61_5.htm >, acesso em: 11/11/2020.

EMBRAPA. SOLUÇÕES TECNOLÓGICAS: AZEVÉM – BRS INTEGRAÇÃO. Disponível em: < https://www.embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas/-/produto-servico/4291/azevem—brs-integracao >, acesso em: 11/11/2020.

MORAES, P. V. D. et al. MANEJO DE PLANTAS DE COBERTURA NO CONTROLE DE PLANTAS DANINHAS NA CULTURA DO MILHO. Planta Daninha, Viçosa-MG, v. 27, n. 2, p. 289-296, 2009. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/pd/v27n2/11.pdf >, acesso em: 11/11/2020.

PAULINO, R. A. et al.  POTENCIAL ALELOPÁTICO DE EXTRATOS DE ERVILHACA (Vicia villosa) AVEIA PRETA (Avena strigosa) E AZEVÉM (Lolium multiflorum) NA GERMINAÇÃO DE SEMENTES E CRESCIMENTO INICIAL DE PLÂNTULAS DE MILHO. Revista Thema, v. 14, n. 4, 2014. Disponível em: < http://periodicos.ifsul.edu.br/index.php/thema/article/view/739 >, acesso em: 11/11/2020.


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