Autores: Prof. Dr. Argemiro Luís Brum e Jaciele Moreira.

As cotações da soja em Chicago iniciaram um movimento de recuo durante a semana, pressionadas pela colheita nos EUA. O bushel da oleaginosa, para o primeiro mês cotado, chegou a bater em US$ 9,93 no dia 29/09. Entretanto, o anúncio do relatório de estoques trimestrais, na posição 1º de setembro, reverteu a tendência e as cotações subiram a partir do dia 30/09. Com isso, o fechamento do primeiro mês cotado ficou em US$ 10,23/bushel neste dia 1º de outubro, contra US$ 10,00 uma semana antes.

Vale apontar que a média de setembro fechou em US$ 9,98/bushel, ou seja, 10,4% acima da média registrada em agosto. Para comparação, a média de setembro do ano passado foi de US$ 8,77/bushel. Ou seja, o bushel médio de soja hoje está valendo 13,8% acima do valor registrado um ano antes. O efeito da demanda chinesa explica o comportamento, pois em termos de oferta, a atual colheita estadunidense será bem melhor do que a frustrada safra passada.

O relatório de estoques surpreendeu o mercado, apesar de se esperar uma redução importante nos volume de soja estocados nos EUA. O mesmo apontou 14,2 milhões de toneladas relativas a safra velha, uma queda de 42% sobre igual período de 2019.

Diante disso, perdeu força o fato de a colheita nos EUA ter atingido a 20% da área até o dia 27/09, superando a média histórica que é de 15% nesta época, e as cotações subiram novamente. Das lavouras a serem colhidas, 64% estavam entre boas a excelentes, 32% regulares e 13% entre ruins a muito ruins.

Tudo indica que, precificado os números do relatório de estoque, o mercado voltará a sofrer pressão baixista devido a colheita estadunidense, especialmente se a China diminuir seu ritmo de compras.

Por sua vez, na semana encerrada em 24 de setembro, as exportações estadunidenses de soja ficaram em 1,21 milhão de toneladas, ou seja, dentro do esperado pelo mercado. No total do atual ano comercial, iniciado em 1º de setembro, o volume exportado chega a 4,8 milhões de toneladas, isto é, 53,7% acima do registrado no mesmo período do ano anterior.

Enquanto isso, na Argentina informa-se que a área com soja deverá aumentar em 100.000 hectares, atingindo um total de 17,2 milhões de hectares. A questão agora passa a ser o clima, pois as chuvas estão escassas e isso tende a atrasar a semeadura da oleaginosa logo mais. A Argentina igualmente deverá ser atingida pelo fenômeno La Niña nesta primavera/verão.

No Brasil, com Chicago batendo nos US$ 10,00/bushel, os prêmios se mantendo elevados, diante da escassez de produto para exportação, e novamente um Real perto dos R$ 5,70 por dólar, os preços voltaram a subir. A média gaúcha no balcão bateu em R$ 138,57/saco, enquanto no Paraná o produto ficou entre R$ 133,00 e R$ 135,00; em Campo Novo do Parecis (MT) em R$ 136,50; o CIF Maracaju (MS) chegou a R$ 152,00; em Luís Eduardo Magalhães (BA) R$ 130,00; e em Rio Verde (GO) o saco de soja fechou na média de R$ 135,00.

Em Paranaguá, porto do Paraná, a soja, ao ser negociada em R$ 132,80/saco no dia 21/09, além de bater o recorde nominal de preços, se aproximou do recorde real que é de R$ 139,20/saco, registrado em setembro de 2012, em valores de hoje.

Como tais preços são excepcionais, espera-se um recuo destes preços para o início da nova colheita, a partir de fevereiro, dependendo do volume de safra que o Brasil irá colher. Por enquanto projeta-se um recorde histórico entre 131 e 133 milhões de toneladas, porém, o clima seco no momento está atrasando o plantio no Centro-Oeste e no Paraná, assim como pode comprometer o desempenho das lavouras no futuro caso o fenômeno La Niña se confirme de maneira mais acentuada. Neste caso, associado a uma indefinição cambial (embora nossa moeda precise se valorizar em relação ao que aí está), pode segurar os preços da soja em preços elevados mesmo na colheita.



Cientes dessa realidade, os produtores aceleram as vendas antecipadas, porém, não podendo se descuidar dos volumes comprometidos no futuro, pois uma frustração de safra, mesmo que parcial, pode colocar muitos em dificuldades para honrarem os contratos assumidos. Dito isso, muitos produtores estão já negociando antecipadamente a safra de 2021/22, ou seja, aquela que será semeada apenas a partir de setembro do próximo ano.

Enquanto isso, o plantio da atual safra chegou a apenas 0,75% no Mato Grosso, neste final de setembro, estando atrasado devido a falta de chuvas. Em algumas regiões não chove adequadamente há mais de seis meses. A média histórica de plantio para o final de setembro é perto de 3% da área. (cf. Imea) Ao mesmo tempo, o plantio de soja no Brasil, até o último final de semana de setembro, chegava igualmente a 0,7% da área esperada, estando um pouco abaixo do ritmo do ano passado, sendo que o Paraná alcançava 3% da área, porém, tendo que parar o processo por falta de chuva. (Cf. AgRural) No ano passado, nesta época, o Paraná já havia semeado 10% de sua área de soja. Este Estado espera colher 20,4 milhões de toneladas nesta nova safra. (cf. Deral)

Por sua vez, com a China recompondo seu plantel suinícola, após o auge da peste suína africana em 2018/19, espera-se que as importações de soja por parte do país asiático continuem firmes no próximo ano. Apenas em agosto 2.030 novas propriedades de suínos voltaram a operar naquele país. Esse movimento geral explica a forte demanda externa chinesa por soja e milho no corrente ano, ajudando a puxar para cima os preços da oleaginosa via melhores prêmios nos portos.

Enfim, como alertado e não poderia deixar de ser, os preços internos do óleo de soja disparam no Brasil. Os mesmos estão no maior nível desde dezembro de 2002. A forte demanda, tanto interna quanto externa, e a baixa disponibilidade devido ao esmagamento diminuto pela falta de soja, estão na origem do processo.

Assim, no final de setembro a tonelada média do óleo de soja, incluindo ICMS, valia R$ 6.318,29 (a preços de hoje, o melhor preço foi em dezembro de 2002 quando a tonelada atingiu a R$ 7.102,20). (cf. Cepea/Esalq) E ainda há cerca de quatro meses pela frente até a entrada da nova safra brasileira.

Neste contexto, teria havido uma mudança na composição da receita gerada pela indústria de soja. Normalmente, esta receita estava ligada a 70% com o farelo e 30% com o óleo, porém, neste ano a participação do óleo subiu para até 42%, algo que não ocorria desde maio de 2012. O Brasil deverá exportar um milhão de toneladas de óleo de soja neste ano, mais de três vezes o volume estimado inicialmente. A produção brasileira total de óleo de soja, incluindo o oriundo da soja importada, deverá atingir a 8,96 milhões de toneladas, sendo o maior nível desde 2007. Mesmo assim, os estoques finais do produto em 2020 ficariam em apenas 48.000 toneladas, o menor patamar histórico. Com isso, a pressão de alta nos preços do óleo de soja no varejo brasileiro deverá continuar.


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Fonte: Informativo CEEMA UNJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum (1) e de Jaciele Moreira (2).

1 – Professor do DACEC/UNIJUI, doutor em economia internacional pela EHESS de Paris França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA.
2-  Analista do Laboratório de Economia da UNIJUI, bacharel em economia pela UNIJUÍ, Tecnóloga em Processos Gerenciais – UNIJUÍ e aluna do MBA – Finanças e Mercados de Capitais – UNIJUÍ e ADM – Administração UNIJUÍ

Texto originalmente publicado em:
CEEMA
Autor: CEEMA Unijui

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