A resistência se refere à capacidade adquirida de uma planta em sobreviver a determinados tratamentos herbicidas que, em condições normais, controlam os integrantes da população (Vargas et al., 1999).

Essa resistência pode ser cruzada ou múltipla, onde a resistência cruzada ocorre quando biótipos de plantas daninhas são resistentes a dois ou mais herbicidas, devido a um só mecanismo de resistência, portanto, resistente a todos os herbicidas que apresentam um mesmo mecanismo de ação (Christoffoleti, 2004).

Já a resistência múltipla ocorre quando um indivíduo possui um ou mais mecanismos de resistência distintos que conferem o comportamento resistente a herbicidas com mecanismo de ação diferenciado (Christoffoleti, 2004).


Veja também: Buva e 2,4-D: resistência em plantas sem sintomas?


Outros dois conceitos importantes que temos que levar em consideração é a diferença entre suscetibilidade e tolerância. Primeiramente, a suscetibilidade é uma característica inata de uma espécie, em que há alterações marcantes no crescimento e desenvolvimento da planta, como resultado de sua incapacidade de suportar a ação do herbicida (Christoffoleti et al., 2000).

A tolerância já se refere a uma característica inata da espécie em sobreviver a aplicação de herbicidas na dose recomendada, que seria letal a outras espécies, sem alterações marcantes em seu crescimento e desenvolvimento. É uma característica que existe nas plantas antes mesmo da primeira aplicação do herbicida (Christoffoleti, 2004).

Estas características relacionam-se com a variabilidade genética natural da espécie. Em dada população de plantas existem aquelas que, naturalmente, toleram mais ou menos um determinado herbicida.

Por outro lado, a resistência é a capacidade adquirida de dada planta em sobreviver a determinada dose de um herbicida que, em condições normais, controla os demais integrantes da população. A resistência pode ocorrer naturalmente (seleção) ou ser induzida com o uso de biotecnologia (Weed Science, 1999a).


Veja também: Argentina: os casos de resistência a herbicidas se multiplicam


A primeira constatação de resistência de plantas daninhas aos herbicidas ocorreu em 1957, quando foram identificados biótipos de Commelina difusa (trapoeraba) nos Estados Unidos e, depois, Daucus carota (cenoura-brava) no Canadá, ambos resistentes a herbicidas pertencentes ao grupo das auxinas (Weed Science, 1998).

Em 1970, no Estado de Washington (EUA), foram descobertos biótipos de Senecio vulgaris resistentes a simazine (Ryan, 1970). Estudos posteriores demonstraram que esta espécie era resistente a todas as triazinas, devido a uma mutação nos seus cloroplastos (Radosevich et al., 1979). Posteriormente, várias outras espécies com resistência a triazinas foram descritas em gêneros como Amaranthus e Chenopodium, em diferentes países (Radosevich, 1977).

Estima-se que, no mundo, haja mais de 5 milhões de hectares de culturas com invasoras apresentando alguma resistência a triazinas (Kissmann, 1996). Em menos de 30 anos, após o primeiro caso de resistência, havia mais de 100 espécies reconhecidamente resistentes em cerca de 40 países (Heap, 1997). Muitos outros casos têm sido relatados, e hoje há aproximadamente 300 biótipos de plantas daninhas que apresentam resistência a um ou mais mecanismos herbicidas.


Veja também: EUA: um pouco mais sobre a resistência de caruru aos herbicidas do grupo 15


Acredita-se que um maior número de biótipos resistentes surge para alguns mecanismos herbicidas, como os grupos das triazinas e inibidores da ALS, devido às altas especificidade e à eficiência destes e, também, ao fato de serem empregados em grandes áreas.

Alguns mecanismos de ação, como os inibidores de PROTOX, apresentam menor número de plantas daninhas resistentes. As razões para o não surgimento de plantas daninhas resistentes para alguns grupos de herbicidas, apesar de alguns estarem sendo empregados a longo tempo, não são claras, porém acredita-se que estejam relacionadas com o modo e o mecanismo de ação.

A resistência de plantas daninhas a herbicidas assume grande importância, principalmente em razão do limitado número de herbicidas alternativos para serem usados no controle dos biótipos resistentes. O número de ingredientes ativos disponíveis para controle de algumas espécies daninhas é restrito, e o desenvolvimento de novas moléculas é cada vez mais difícil e oneroso. A ocorrência de resistência múltipla agrava ainda mais o problema, já que, neste caso, são dois ou mais os mecanismos que precisam ser substituídos. Assim, o controle dos biótipos resistentes com o uso de herbicidas é comprometido, o que restringe esta prática a outros métodos menos eficientes.

A figura abaixo mostra, no tempo, como se deu o desenvolvimento das moléculas herbicidas e exemplifica a carência de herbicidas com novos mecanismos de ação atualmente.

Figura 1: Introdução dos mecanismos de ação.

Fonte: UPF.

Agora veja o que essa carência de herbicidas com novos mecanismos trouxe como consequências no cenário de resistência de plantas daninhas.

Figura 1: Biótipos resistentes por mecanismos de ação.

Fonte: Weedscience.

Pensando nisso, na terceira temporada do Dicas Mais Soja, o pesquisador da CCGL Mário Bianchi, comentou sobre resistência de plantas daninhas, as principais espécies daninhas resistentes à herbicidas e a importância do uso do herbicida pré-emergente para alertar e trazer essas informações para o produtor rural.

O pesquisador destaca que as principais espécies daninhas resistentes na cultura da soja, atualmente, são:

  • Primeiramente a buva, que já é antiga na cultura e apresenta resistência há alguns anos;
  • O caruru, cuja resistência é mais recente, sendo constatada na safra passada;
  • A leiteira, que quando fala-se em resistência à herbicidas na soja essa espécie foi a primeira a ser constatada como resistente;
  • Capim pé-de-galinha;
  • Capim amargoso.

Veja também: Plantas daninhas importantes em soja: caruru!


Segundo o pesquisador, quando olhamos para o cenário de resistência no Brasil, pensando somente no glifosato, temos a buva, o capim amargoso e o capim pé-de-galinha como resistentes no país. Porém, devemos levar em consideração que o primeiro caso de resistência no país foi em 1993 com a leiteira resistente ao imazaquin.

Atualmente, conforme destacou o pesquisador, já temos cerca de 50 espécies de plantas daninhas no país resistentes a herbicidas em um período de 26 anos, fato que vem preocupando bastante tanto os agricultores como pesquisadores.

O aumento desse número que vem aumentando gradativamente é bastante preocupante, sobretudo porque o processo de seleção está sendo bastante intenso e o próprio agente de seleção é o herbicida, que acaba por selecionar indivíduos ano após ano.

Por isso, o pesquisador destaca que devemos ter muita cautela e verificar atentamente quais são as ferramentas de controle que estamos utilizando, se estas estão sendo utilizadas adequadamente e quais os herbicidas que fazem parte do controle de plantas daninhas da lavoura.



Conforme destacado, quando a pesquisa anuncia sobre mais um caso de uma nova planta daninha resistente, será mais uma planta de difícil controle na lavoura, aumentando o custo do produtor, reduzindo a produtividade e a eficiência nas nossas lavouras.

Além do processo de dessecação que é importante antes da implantação da cultura da soja, também deve-se atentar que plantas daninhas como caruru, capim amargoso e capim pé-de-galinha também irão ocorrer dentro da lavoura de soja, necessitando outras alternativas de controle que venham a combater e inibir o aparecimento dessas espécies.

Para ouvir a conversa do pesquisador com o Mais Soja, assista o vídeo abaixo.

Leitura complementar utilizada: EmbrapaDefesa vegetal.

Para saber mais clique aqui.



Elaboração: Engenheira Agrônoma Andréia Procedi – Equipe Mais Soja.

Nenhum comentário

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.